terça-feira, 17 de julho de 2012

dança no andar de cima,


Dança no andar de cima é um espaço de produção, criação e investigação em arte contemporânea, localizado em Fortaleza, no Ceará. O encontro, Uma conversa: poesia, aconteceu no dia 23 de junho de 2012, às 18:00, com leituras de poemas e conversa com Carlos Augusto Lima, Júlia Studart, Leonardo Gandolfi e Manoel Ricardo de Lima. As fotografias são da querida Denise Mustafa. 


de uma conversa amena com júlia lopes: eu só te aguardo, não te espero mais. ao tempo em que rio quando esquecer os óculos e promessas e felicitações de aniversário; mas não me olha, pois promete trazer lembranças do free shop para a menina um dia. ali, os campeões anônimos do futevôlei em vibração e torcida. esqueço a última fala, remexo os bolsos. se tocam como se tocariam homens rudes e troncos rijos. desfiei o frango do almoço para compor o jantar: digo. ela: não sei bem o que esperar da vida. eu: você pode combinar com queijo e presunto e pão. e diz: estou preocupada, avancei o sinal em hora suspeita, ele irá dizer de mim qualquer e vou chorar. eu: tento um consolo, mas me assusto com o voo rasante do helicóptero sem luzes, sem sinalização. que imprudente magnata pilotaria tão alta noite e breu, tão preciso na hora do abraço? penso. ela: eu queria ter coragem de dizer. eu: torço para que você apenas diga. ela: ouço, agora, trovões fora de época, do tempo. depois de chorar horrores, de sofrer a encalhar o corpo, escreveremos um livro paradidático a ser adotado nas melhores escolas sobre o sentido oculto de cada parágrafo desse infortúnio e conturbado enredo chamado amor. 
[Carlos Augusto Lima] 


p.s. infelizmente as linhas do poema não puderam ser mantidas por causa do espaço limitado do blog. 



viêt-công
ele quer saber: são
capazes de guardar
segredo? ele
quer saber se o
segredo pode
curar, provocar uma
revira-volta, trazê-lo
pra mais perto. fala
um, dois dialetos
que ninguém entende
e conserva o hábito
de alimentar
patos pela manhã. às
vezes é flagrado
tecendo cálculos
de alegria
num pedaço de
terra no brasil, duas
cervejas por dia, chá
com gengibre e
mel de rosmaninho


os amigos foram
morar no
marrocos. ele
também não
parece francés e
nunca sabe
muito bem, não
faz idéia do que
veio fazer aqui no
meio de tanta
gente. ele também
não diz, mas o
segredo, como todo
o resto, pode ser
apenas invenção. ele
também não diz
se fez um amigo
ou se morre um
pouco a cada dia
mais rápido que
todos nós

[Júlia Studart]



Tiquetaque

Hoje o drama interno de Gancho
atingiu novo estágio e ele precisou ser
implacável com Wendy Darling,
por que ela insiste em se tornar vítima
para despertar atenção e pena dos outros?

Gancho então pensa um pouquinho mais,
as lembranças se apagam e no lugar delas
outra coisa fica, i.e., ao pôr os pingos nos is,
vê que está exagerando, vê que o distrai
a contemplação de seus próprios dias
e que o diverte o desenrolar da vida dos outros.

Sempre me distraio com a contemplação
dos meus próprios dias, diz o capitão,
sempre me divirto com o desenrolar
da vida dos outros, completa ele.

[Leonardo Gandolfi]


Sertão
          Estou há algumas horas na frente desse campo aberto, um terreno roto, contra meus próprios ossos. Algumas horas, pode ser, é o que penso, mas posso estar aqui há vários dias e, assim, estar aqui há semanas, ou há meses. Mas não sei, tanto tempo assim já teria morrido, ou de frio ou de fome ou à bala. Aliás, estou com muita fome. Mas talvez tenha parado aqui apenas por alguns minutos e o tempo não passa disso. Mas não sei. Apare melhor a sua cabeça, isso. Daqui de onde estou o que vejo é um campo horizontal que se estende até aonde minha vista consegue esbarrar e, bem ali, adiante, até aquelas primeiras montanhas, tudo continua desmoronando. O terreno me parece muito inseguro, existem uns barrancos de areia esparramados, algumas linhas de madeira, de ferro, de tecido podre e, acho, algum resto de explosivos.
          Não há mais grama, e sinto frio.
          Sobra a areia vermelha e estas moscas ao redor de tudo por aqui. 
        Tenho um papel em um dos meus bolsos do casaco, pode ser também uma faca, uma ausência. Acho que o mês em que estamos é novembro, o ano talvez seja 1995, e não sei muito bem o que ainda acontece aqui, se acontece algo aqui. Este lugar, aqui, se chama Budak, é nas redondezas de Potocari, um subúrbio de Srebrenica, ao leste. O meu nome eu não sei, ao menos não consigo lembrar agora. Sim, se pudesse a levaria para Glogova, mas não tenho forças para isso. Também não lembro onde fica a aldeia de Glogova. Parei porque vi seus olhos, e me aproximei. São marrons, são bonitos. Seu corpo está tremendo, está gelado. Não, não sou daqui, isto eu sei, mas não faço a menor ideia de onde sou. Claro, não se preocupe com este sangue, eu vou ficar aqui com você. É muito bonito o marrom dos seus olhos. 


[Manoel Ricardo de Lima]

9 comentários:

  1. Menino, menina, menino e menino.
    Ah, 4 meninos.

    Tiririca

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  2. belos poemas em um final de tarde quente de fortaleza! Apropriado para um viêt-công.
    alexandre barbalho

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    1. querido xandim, é porque você tem razão, só o que nos salva é a angústia, contar estrelas etc.
      cheiros e saudades.

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  3. lindo, mané.
    como sempre.
    meu amigo querido.
    meus amigos queridos.

    saudacoes solares!

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  4. lindo encontro e ótimos textos, ô saudade desse povo, poxa! beijos, meus queridos.

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    1. ops, não sou eu, babi!!! beijos!

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  5. feliz de ter fotos minhas nesse blog bonito.
    um beijo aos queridos.

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  6. Adoraria estar por aí esse dia! Beijos

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  7. vontade é de tirar pra dançar. todos.

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