segunda-feira, 16 de junho de 2014

júlia, aníbal


Elida Tessler, "Manicure", 2002
Instalação. Vidros de esmalte vazios. 300 x 30 x 100 cm


particularidade curiosa que
acontece à margem dos
eventos mais importantes

posso jurar que é a mesma
garota colombiana que
vendia acessórios de caña
fecha e bolsas no melhor
estilo nancy gonzalez num
salão de beleza aqui perto

estojo de manicure e manual
para ceramistas, frasquinhos
de esmaltes sujos, enfileirados
sobre a mesa. nail polish,
repete. nail polish. ela gosta
de dizer nail polish e enche
a boca. ela gosta da boca
cheia de palavra. a love
story melosa com sexo light
não altera a sua atenção. todo
excesso de atenção e único
lugar no mundo

o milionário espanhol
cesar montarez deseja rosalind
desde o primeiro encontro,
nunca sentiu uma atração como
aquela. mas cesar não gosta
de mulheres interesseiras e
rosalind está resolvida a não
ser uma delas, até ele
descobrir que rosalind tem
dívidas secretas. agora
cesar pode comprar rosalind
como sua amante

tudo por 4,90

você tem pressa, corre o
olho de vidro sobre o balcão
retangular de fórmica
carvalho, quer salvar a própria
pele, apagar as pegadas. o
fato é que nunca entendi bem
o seu apego exagerado ou
o excesso de atenção. mais
uma vez você corre o olho de
vidro sobre o balcão retangular
de fórmica carvalho. faço de
conta que não é comigo, que
nada, nada pode atrapalhar
o seu ritual. você adora o
colorido dos esmaltes como
se fossem subprodutos
de uma bruxaria infantil
ou da sua imaginação
incomum. carmim, licor, volúpia,
dara, laranja siena, amarelo
real, princesa, affair. dois
ou três vidros de rosa pitanga,
mini saia e final feliz. você
sabia que existe uma cor
final feliz? você faz a
sua aposta, uma escolha
e o mundo inteiro em mãos
flexíveis. tudo é aqui,
e você não é gente

posso jurar que a mesma
garota colombiana, artista
plástica cafajeste, quase
morre no meio da pressa e
do esquecimento. bilhete
enfiado na palma da mão
com o caso todo anotado,
unhas impecáveis: esmalte
rebu. sangue perto da nuca
e cerâmica sung. do lado
esquerdo bolsa croco
nancy gonzalez, o mundo
inteiro a seus pés, uma
única escolha, o fim
do amor


[poema de júlia studart 
trad. aníbal cristobo]


particularidad curiosa que
sucede al margem de los
eventos más importantes


puedo jurar que es la misma
muchacha colombiana que
vendía accesorios de caña
flecha y bolsos al mejor
estilo nancy gonzález en un
salón de belleza aquí cerca

estuche de manicure y manual
para ceramistas, frasquitos
de esmalte sucios, alineados
sobre la mesa. nail polish
repite. nail polish. le gusta
decir nail polish y se llena
la boca. le gusta la boca
llena con la palabra. la love
story melosa con sexo light
no altera su atención. todo
exceso de atención y único
lugar en el mundo

el millonario español
césar montarez desea a rosalind
desde el primer encuentro,
nunca sintió una atracción como 
aquella. pero a césar no le gustan
las mujeres interesadas y 
rosalind está decidida a no 
ser una de ellas, hasta que él
descubra que rosalind tiene
deudas secretas. ahora
césar puede comprar a rosalind
como su amante

todo por 4,90

vos tenés prisa, movés
el ojo de vidrio sobre el mostrador
rectangular de fórmica 
roble, querés salvar tu
piel, borrar las huellas. el
hecho es que nunca entendí bien
tu apego exagerado o
el exceso de atención. una vez
más, movés el ojo de 
vidrio sobre el mostrador rectangular
de fórmica roble. hago de 
cuenta que no tiene que ver conmigo, que
nada, nada puede impedir
tu ritual. te encanta el
colorido de los esmaltes como
si fuesen subproductos
de una brujería infantil
o de tu imaginación 
excepcional. carmín, licor, deleite,
luxedo, naranja siena, amarillo
real, princesa, affair. dos 
o tres frascos de rosa pitanga,
minifalda y final feliz. sabías
que existe un color
final feliz? hacés
tu apuesta, tu elección
y el mundo entero en manos 
flexibles. todo es aquí,
y vos no sos persona

puedo jurar que la misma
muchacha colombiana, artista plástica
sinvergüenza, casi 
muere en medio de la prisa y
del olvido. una nota
apretada en la palma de la mano
con el caso todo anotado,
uñas impecables: esmalte
mauve. sangre cerca de la nuca
y cerámica sung. del lado 
izquierdo bolsa croco 
nancy gonzález, el mundo 
entero a sus pies, una 
sola elección, el fin del
amor




quinta-feira, 12 de junho de 2014

yosa buson,





















O OGRO*

O grito do cuco
entre as nuvens de verão
alcança o defunto

um haiku de Yosa Buson [1716-1783] 
tradução e nota por Sérgio Medeiros

*O grito do passarinho traz à tona a imagem 
de um Ogro, que parece lançar para fora das 
nuvens um braço na direção do caixão.

[foto: júlia studart]

domingo, 25 de maio de 2014

porto alegre, palavraria




lançamento de 'geografia aérea' e 'a forma-formante'
em porto alegre, 22.05, com os amigos edson sousa
e elida tessler - na livraria palavraria 
www.palavraria.wordpress.com

terça-feira, 13 de maio de 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

agora,

Agora

Agora silêncio como no interior de uma pérola. 
Agora façamos branco. 
Agora nem claridade nem escuridão como no interior de uma pérola. 
Agora façamos com que a cabeça desapareça de nós. 
Mas agora. 
Força.

Agora silêncio porque caso contrário 
como no interior de uma pérola não dormimos. 
Agora façamos amarelo façamos violeta. 
Vemos vermelho, janela fechada dos olhos. 
Agora façamos sem.
Agora façamos. 

[giovanni giudici] - [trad. davi pessoa]

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

revista pessoa,



A partir de hoje a Revista Pessoa começa a publicar a seção/coluna ”Terceiro Caderno“, de Carlos Augusto Lima e Manoel Ricardo de Lima, num revezamento, sempre nos dias 10 e 25 de cada mês. O nome da coluna é  retirado do heterônimo fabuloso de Pessoa, António Mora, que escreveu os “Cadernos de reconstrução pagã ou Cadernos de Reação Pagã ou Cadernos [quinzenais] de Cultura Superior”. O “Terceiro Caderno” pode ser atribuído também a Ricardo Reis. Ou seja, transparência e fingimento.


foto de Carlos e Manoel: Denise Mustafa

sábado, 22 de fevereiro de 2014

cuando todos los accidentes suceden,


entrevista feita por Aníbal Cristobo para a revista
Transtierros por causa do lançamento do livro -
CUANDO TODOS LOS ACCIDENTES SUCEDEN -
em Barcelona, editora Kriller71, em maio.

http://www.transtierros.com/la-poesia-como-un-hacer-entrevista-a-manoel-ricardo-de-lima/




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

sábado, 5 de outubro de 2013

'Cinemáticos' no Museu de Arte do Rio [MAR], com Alexandre Veras



Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil
Dia 9 de outubro de 2013

O Museu de Arte do Rio, o Núcleo de Tecnologia da Imagem (N-Imagem) da Escola de Comunicação da UFRJ e a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) apresentam o seminário Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil, com coordenação do pesquisador e artista André Parente. A ação, que integra o programa MAR na Academia, é composta de debates e exibições de filmes de realizadores brasileiros contemporâneos.

A programação divide-se em catorze sessões, em que são abordadas questões que perpassam a produção fílmica em suas diversas linguagens: audiovisual, cinema marginal, cinema estrutural, cinema conceitual, cinema do corpo, cinema do dispositivo, cinema de arquivo, cinema híbrido, cinema interativo, cinema ao vivo, cine-ensaio, instruções para filmes, cinema de inversão, protocinema e transcinemas. A sincronicidade entre as experimentações dos artistas e as rupturas epistemológicas; a convergência dos meios; as transformações estéticas; e o cruzamento dos circuitos das artes plásticas e das artes da imagem em movimento são alguns dos temas debatidos.

Convidado: Alexandre Veras

Alexandre Veras (CE, 1969) foi coordenador do Alpendre-Casa de Arte, Pesquisa e Produção, onde desenvolve atividades de coordenação e curadoria de mostras, seminários, cursos, exposições, entre outros. Desde 2000 vem desenvolvendo trabalhos em documentário, vídeoarte, vídeo-dança e instalações, dentre eles: “Partida”, “Marahope 14/07” e “O Regresso de Ulisses”. Realizou o DOCTV "Vilas Volantes – o verbo contra o vento" e o longa-metragem "Linz - quando todos os acidentes acontecem".

Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil
Toda quarta-feira. De 21 de agosto a 27 de novembro.
De 13h às 17h.
Auditório do MAR.
50 vagas (Distribuição de senha com uma hora de antecedência).


'Opisanie Swiata', de Veronica Stigger


Resenha publicada no jornal O Globo, Prosa & Verso, em 05 de outubro de 2013 [Segue a versão integral]

Invenções do mundo
por Manoel Ricardo de Lima*

Em Cobra Norato, Raul Bopp escreve: “Agora sim / me enfio nessa pele de seda elástica / e saio a correr mundo”. Num outro poema, Floresta, num verso solto, escreve: “A floresta não gosta de ser interrogada”. Mas aí mora o apontamento convulso de Bopp: uma tarefa da arte, desde a modernidade, e agora mais do que nunca, seria correr mundo através da profundidade animal da pele para interrogar a floresta e tentar tocar esse rodopio técnico e estético da vida diante do horror entre o dinheiro e a guerra. E, se estamos numa luta das imagens, é possível pensar numa literatura mais potente que se refaça na história, com a história, no tanto que esta é constituída e carregada de equívocos e, mais precisamente, de nonsense. O que pode quebrar um pouco com esse último estado da crítica literária, a publicidade, que tem seu maior exemplo nessa leva de “articulistas” contratados por editoras para “resenharem” sobre os livros que elas mesmas editam etc. Mas, no meio disso tudo, com alguma dignidade, a literatura ainda pode ser aquilo que, de certo modo, Joaquim Cardozo defendia: algo mais perto de uma forma-formante e da assombração.
Assim, um encontro entre um Raul Bopp destemido, um provável Oswald de Andrade, um Opalka possivelmente Roman e alguns elementos soltos – postais, reclames, fotografias, anotações, humor, um narrador imprevisto e sem propósito que esquece muitas vezes de si e mistura-se num outro, um Chivito uruguaio que pretende construir um Museu do Homem em Trânsito, um alemão amigo de nome Hans, algumas cartas, uma doença, um homem que morre, uma viagem de trem, uma viagem de navio, uma Amazônia ambivalente porque contrita e expandida, um poema-projeto achado a esmo, o mar, o deserto etc – se faz possível exatamente a partir do DIZER [quando dizer é fazer] de quem torce o empenho e o nariz, é claro, para armar uma acrobacia numa montagem deliberada em direção ao desconhecido.
É o caso do livro mais recente de Veronica Stigger, Opisanie Swiata, que pode ser lido tanto como um romance quanto como um remendo, um resto de anotação ou o que sobra do gesto da viagem como literatura. Uma espécie de tentativa de experimentar a experiência do mundo composto nessa desopressão causada pela viagem em torno de uma consciência animal, logo política: “mordo o que posso”, diz Valéry. Ou uma “máquina infernal”, como sugere Jean Cocteau. Um filho, Natanael, doente e internado num hospital, escreve ao pai e espera, ansioso e moribundo, que o pai o visite para conhecê-lo. O pai é Opalka, um polonês circunscrito em meio a guerra na Europa, a guerra do mundo – e a descoberta aflita de um filho no Brasil que vive na Amazônia onde esteve no começo do século –, toma um trem, depois um navio, e nesse traslado do deserto cruza com Bopp, um famigerado viajante descobridor de aventuras [entre outros personagens], para entender a própria selvageria. É sintomática a cena em que Bopp lhe estende um caderninho preto, como presente, depois de Opalka saber sobre a morte do filho, para fazer anotações, para que “escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que esqueceu.” e “Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”
Esse livro de Veronica tem a ver com a composição de seu trabalho, não apenas desde os primeiros livros – ou do mais recente apenas publicado na Argentina, Sur –, mas também com uma tarefa crítica que atravessa alguns de seus interesses, como por exemplo Flávio de Carvalho [que procura compor uma deformação entre o que pode ser a imagem e a memória do corpo numa afrontalidade com o intocável e com o não-acabado, daí A origem animal de Deus, por exemplo] e Maria Martins, particularmente, como ela mesma ressalta, a série Amazônia [Veronica fez a curadoria da exposição de MM, no MAM-SP, em cartaz entre julho e setembro deste ano: ‘Maria Martins: Metamorfoses’]. Depois, ainda, seus livros traçam uma linha modulada e pontiaguda do que vem de alguns escritores que estão entre os mais imaginativos e inventivos no Brasil.
Penso, como exemplos, além das narrativas de viagem próprias dos anos 1920, como bem aponta Flora Sussekind na apresentação do livro, em alguns outros livros singulares: como Mar Paraguayo ou Meu tio Roseno, a cavalo, de Wilson Bueno; os livros-montagem do carrasco-neutro Valêncio Xavier; José Agrippino de Paula com seu PanAmérica; Paulo Leminski com o retalhamento-intervenção que faz do autorretrato na série biobliográfica que compôs por todo o seu trabalho, de Propp a Descartes, de Trótski a Narciso ou Jesus etc; a intolerável e bem humorada viagem interior de Simplício, o personagem de A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1869; ou na impertinência radical entre jogo e colagem da narrativa de Gerardo Mello Mourão, O Valete de Espadas, escrita nos anos 1940 quando esteve preso nos porões do Estado Novo e só publicado no final dos anos 1950. E agora, muito recente, concentrado entre imaginação e força, como uma fadiga, o romance exausto e encantador de Jorge Viveiros de Castro, A invenção do amor, que cumpre um modo de operação pelo lado B dessa afasia de feira e supermercado festivos que virou moda entre nós.
Por isso que um livro absolutamente imaginativo e sem classificação precária como o de Veronica é, no mínimo, um alento, porque provoca encontros imprevistos na recolha de imagens inventadas como fantasmagorias entre o vazio da história e o que a história não toca. Voltamos a Raul Bopp. Isto é, ao mesmo tempo, linguagem gritada e consciência do impenetrável. Logo, nem monumento nem memória. Mas sim, como sugere Silvina Rodrigues Lopes, quando a literatura é um móbile do “ser-com-os-outros”. Ou seja, quando essas metamorfoses imprevisíveis podem gerar um pensamento que acontece na contra-assinatura. Invenção de linguagens, desterritorialização e exigência de hospitalidade que incitam à apropriação da des-apropriação, propondo uma apropriação antropofágica para a qual a ilegibilidade não se opõe ao legível, pois, pelo contrário, suporta o infinito da leitura.

*Manoel Ricardo de Lima é poeta, professor da Escola de Letras e do PPGMS [UNIRIO]. Publicou, entre outros, Entre percurso e vanguarda – alguma poesia de Paulo Leminski [Annablume, ensaio, 2002] e Jogo de Varetas [7Letras, narrativas, 2012].

Leia também a versão reduzida no Blog do jornal O Globo: