terça-feira, 12 de agosto de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
júlia, aníbal
Elida Tessler, "Manicure", 2002
Instalação. Vidros de esmalte vazios. 300 x 30 x 100 cm
acontece à margem dos
eventos mais importantes
posso
jurar que é a mesma
garota
colombiana que
vendia
acessórios de caña
fecha
e bolsas no melhor
estilo
nancy gonzalez num
salão
de beleza aqui perto
estojo
de manicure e manual
para
ceramistas, frasquinhos
de
esmaltes sujos, enfileirados
sobre
a mesa. nail polish,
repete.
nail polish. ela gosta
de
dizer nail polish e enche
a
boca. ela gosta da boca
cheia
de palavra. a love
story
melosa com sexo light
não
altera a sua atenção. todo
excesso
de atenção e único
lugar
no mundo
o milionário espanhol
cesar montarez deseja rosalind
desde o primeiro encontro,
nunca sentiu uma atração como
aquela. mas cesar não gosta
de mulheres interesseiras e
rosalind está resolvida a não
ser uma delas, até ele
descobrir que rosalind tem
dívidas secretas. agora
cesar pode comprar rosalind
como sua amante
tudo por 4,90
você
tem pressa, corre o
olho
de vidro sobre o balcão
retangular
de fórmica
carvalho,
quer salvar a própria
pele,
apagar as pegadas. o
fato
é que nunca entendi bem
o
seu apego exagerado ou
o
excesso de atenção. mais
uma
vez você corre o olho de
vidro
sobre o balcão retangular
de
fórmica carvalho. faço de
conta
que não é comigo, que
nada,
nada pode atrapalhar
o
seu ritual. você adora o
colorido
dos esmaltes como
se
fossem subprodutos
de
uma bruxaria infantil
ou
da sua imaginação
incomum.
carmim, licor, volúpia,
dara, laranja siena, amarelo
real, princesa, affair. dois
ou
três vidros de rosa pitanga,
mini saia e final feliz. você
sabia
que existe uma cor
final feliz? você faz a
sua
aposta, uma escolha
e
o mundo inteiro em mãos
flexíveis.
tudo é aqui,
e
você não é gente
posso
jurar que a mesma
garota
colombiana, artista
plástica cafajeste, quase
morre
no meio da pressa e
do
esquecimento. bilhete
enfiado
na palma da mão
com
o caso todo anotado,
unhas
impecáveis: esmalte
rebu. sangue
perto da nuca
e
cerâmica sung. do lado
esquerdo
bolsa croco
nancy gonzalez, o mundo
inteiro
a seus pés, uma
única
escolha, o fim
do
amor
[poema de júlia studart
trad. aníbal cristobo]
particularidad curiosa que
sucede al margem de los
eventos más importantes
puedo jurar que es la misma
muchacha colombiana que
vendía accesorios de
caña
flecha y bolsos al mejor
estilo nancy gonzález
en un
salón de belleza aquí cerca
estuche de manicure y
manual
para ceramistas, frasquitos
de esmalte sucios,
alineados
sobre la mesa. nail
polish,
repite. nail polish.
le gusta
decir nail polish y
se llena
la boca. le gusta la boca
llena con la palabra. la love
story melosa con sexo light
no altera su atención. todo
exceso de atención y único
lugar en el mundo
el millonario español
césar montarez desea a rosalind
desde el primer encuentro,
nunca sintió una atracción
como
aquella. pero a césar no le
gustan
las mujeres interesadas
y
rosalind está decidida a
no
ser una de ellas, hasta que
él
descubra que rosalind tiene
deudas secretas. ahora
césar puede comprar a
rosalind
como su amante
todo por 4,90
vos tenés prisa, movés
el ojo de vidrio sobre el
mostrador
rectangular de
fórmica
roble, querés salvar tu
piel, borrar las huellas.
el
hecho es que nunca entendí
bien
tu apego exagerado o
el exceso de atención. una
vez
más, movés el ojo de
vidrio sobre el mostrador
rectangular
de fórmica roble. hago
de
cuenta que no tiene que ver
conmigo, que
nada, nada puede impedir
tu ritual. te encanta el
colorido de los esmaltes
como
si fuesen subproductos
de una brujería infantil
o de tu imaginación
excepcional. carmín,
licor, deleite,
luxedo, naranja siena,
amarillo
real, princesa, affair. dos
o tres frascos de rosa
pitanga,
minifalda y final feliz. sabías
que existe un color
final feliz? hacés
tu apuesta, tu elección
y el mundo entero en
manos
flexibles. todo es aquí,
y vos no sos persona
puedo jurar que la misma
muchacha colombiana, artista
plástica
sinvergüenza, casi
muere en medio de la prisa
y
del olvido. una nota
apretada en la palma de la
mano
con el caso todo anotado,
uñas impecables: esmalte
mauve. sangre cerca de la nuca
y cerámica sung. del
lado
izquierdo bolsa croco
nancy gonzález, el
mundo
entero a sus pies,
una
sola elección, el fin del
amor
Aníbal Cristobo:
http://kriller71.blogspot.com.br/2014/06/particularidad-curiosa-que-sucede-al.html
Elida Tessler:
http://www.elidatessler.com
http://kriller71.blogspot.com.br/2014/06/particularidad-curiosa-que-sucede-al.html
Elida Tessler:
http://www.elidatessler.com
quinta-feira, 12 de junho de 2014
yosa buson,
O OGRO*
O grito do cuco
entre as nuvens de verão
alcança o defunto
um haiku de Yosa Buson [1716-1783]
tradução e nota por Sérgio Medeiros
*O grito do passarinho traz à tona a imagem
de um Ogro, que parece lançar para fora das
nuvens um braço na direção do caixão.
[foto: júlia studart]
domingo, 25 de maio de 2014
porto alegre, palavraria
lançamento de 'geografia aérea' e 'a forma-formante'
em porto alegre, 22.05, com os amigos edson sousa
e elida tessler - na livraria palavraria
www.palavraria.wordpress.com
terça-feira, 13 de maio de 2014
sábado, 26 de abril de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
quarta-feira, 26 de março de 2014
agora,
AgoraAgora silêncio como no interior de uma pérola.
Agora façamos branco.
Agora nem claridade nem escuridão como no interior de uma pérola.
Agora façamos com que a cabeça desapareça de nós.
Mas agora.
Força.
Agora silêncio porque caso contrário
como no interior de uma pérola não dormimos.
Agora façamos amarelo façamos violeta.
Vemos vermelho, janela fechada dos olhos.
Agora façamos sem.
Agora façamos.
[giovanni giudici] - [trad. davi pessoa]
segunda-feira, 10 de março de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
revista pessoa,
A partir de hoje a Revista Pessoa começa a publicar a seção/coluna ”Terceiro Caderno“, de Carlos Augusto Lima e Manoel Ricardo de Lima, num revezamento, sempre nos dias 10 e 25 de cada mês. O nome da coluna é retirado do heterônimo fabuloso de Pessoa, António Mora, que escreveu os “Cadernos de reconstrução pagã ou Cadernos de Reação Pagã ou Cadernos [quinzenais] de Cultura Superior”. O “Terceiro Caderno” pode ser atribuído também a Ricardo Reis. Ou seja, transparência e fingimento.
foto de Carlos e Manoel: Denise Mustafa
sábado, 22 de fevereiro de 2014
cuando todos los accidentes suceden,
entrevista feita por Aníbal Cristobo para a revista
Transtierros por causa do lançamento do livro -
CUANDO TODOS LOS ACCIDENTES SUCEDEN -
em Barcelona, editora Kriller71, em maio.
http://www.transtierros.com/la-poesia-como-un-hacer-entrevista-a-manoel-ricardo-de-lima/
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
sábado, 30 de novembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
'Cinemáticos' no Museu de Arte do Rio [MAR], com Alexandre Veras
Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil
Dia 9 de outubro de 2013
O Museu de Arte do Rio, o Núcleo de Tecnologia da Imagem (N-Imagem) da Escola de Comunicação da UFRJ e a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) apresentam o seminário Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil, com coordenação do pesquisador e artista André Parente. A ação, que integra o programa MAR na Academia, é composta de debates e exibições de filmes de realizadores brasileiros contemporâneos.
A programação divide-se em catorze sessões, em que são abordadas questões que perpassam a produção fílmica em suas diversas linguagens: audiovisual, cinema marginal, cinema estrutural, cinema conceitual, cinema do corpo, cinema do dispositivo, cinema de arquivo, cinema híbrido, cinema interativo, cinema ao vivo, cine-ensaio, instruções para filmes, cinema de inversão, protocinema e transcinemas. A sincronicidade entre as experimentações dos artistas e as rupturas epistemológicas; a convergência dos meios; as transformações estéticas; e o cruzamento dos circuitos das artes plásticas e das artes da imagem em movimento são alguns dos temas debatidos.
Convidado: Alexandre Veras
Alexandre Veras (CE, 1969) foi coordenador do Alpendre-Casa de Arte, Pesquisa e Produção, onde desenvolve atividades de coordenação e curadoria de mostras, seminários, cursos, exposições, entre outros. Desde 2000 vem desenvolvendo trabalhos em documentário, vídeoarte, vídeo-dança e instalações, dentre eles: “Partida”, “Marahope 14/07” e “O Regresso de Ulisses”. Realizou o DOCTV "Vilas Volantes – o verbo contra o vento" e o longa-metragem "Linz - quando todos os acidentes acontecem".
Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil
Toda quarta-feira. De 21 de agosto a 27 de novembro.
De 13h às 17h.
Auditório do MAR.
50 vagas (Distribuição de senha com uma hora de antecedência).
'Opisanie Swiata', de Veronica Stigger
Invenções do mundo
por Manoel
Ricardo de Lima*
Em Cobra Norato, Raul Bopp escreve: “Agora sim / me enfio nessa pele
de seda elástica / e saio a correr mundo”. Num outro poema, Floresta, num verso solto, escreve: “A
floresta não gosta de ser interrogada”. Mas aí mora o apontamento convulso de
Bopp: uma tarefa da arte, desde a modernidade, e agora mais do que nunca, seria
correr mundo através da profundidade animal da pele para interrogar a floresta e
tentar tocar esse rodopio técnico e estético da vida diante do horror entre o
dinheiro e a guerra. E, se estamos numa luta das imagens, é possível pensar numa
literatura mais potente que se refaça na história, com a história, no tanto que esta é constituída e carregada de
equívocos e, mais precisamente, de nonsense.
O que pode quebrar um pouco com esse último estado da crítica literária, a
publicidade, que tem seu maior exemplo nessa leva de “articulistas” contratados
por editoras para “resenharem” sobre os livros que elas mesmas editam etc. Mas,
no meio disso tudo, com alguma dignidade, a literatura ainda pode ser aquilo
que, de certo modo, Joaquim Cardozo defendia: algo mais perto de uma forma-formante e da assombração.
Assim, um encontro entre
um Raul Bopp destemido, um provável Oswald de Andrade, um Opalka possivelmente
Roman e alguns elementos soltos – postais, reclames, fotografias, anotações, humor,
um narrador imprevisto e sem propósito que esquece muitas vezes de si e
mistura-se num outro, um Chivito uruguaio que pretende construir um Museu do Homem em Trânsito, um alemão
amigo de nome Hans, algumas cartas, uma doença, um homem que morre, uma viagem
de trem, uma viagem de navio, uma Amazônia ambivalente porque contrita e
expandida, um poema-projeto achado a esmo, o mar, o deserto etc – se faz
possível exatamente a partir do DIZER [quando dizer é fazer] de quem torce o
empenho e o nariz, é claro, para armar uma acrobacia numa montagem deliberada em
direção ao desconhecido.
É o caso do livro mais
recente de Veronica Stigger, Opisanie
Swiata, que pode ser lido tanto como um romance quanto como um remendo, um
resto de anotação ou o que sobra do gesto da viagem como literatura. Uma espécie
de tentativa de experimentar a
experiência do mundo composto nessa desopressão causada pela viagem em
torno de uma consciência animal, logo política: “mordo o que posso”, diz
Valéry. Ou uma “máquina infernal”, como sugere Jean Cocteau. Um filho, Natanael,
doente e internado num hospital, escreve ao pai e espera, ansioso e moribundo, que
o pai o visite para conhecê-lo. O pai é Opalka, um polonês circunscrito em meio
a guerra na Europa, a guerra do mundo – e a descoberta aflita de um filho no
Brasil que vive na Amazônia onde esteve no começo do século –, toma um trem,
depois um navio, e nesse traslado do deserto cruza com Bopp, um famigerado
viajante descobridor de aventuras [entre outros personagens], para entender a
própria selvageria. É sintomática a cena em que Bopp lhe estende um caderninho
preto, como presente, depois de Opalka saber sobre a morte do filho, para fazer
anotações, para que “escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A
gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que esqueceu.” e “Ou para
inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”
Esse livro de Veronica
tem a ver com a composição de seu trabalho, não apenas desde os primeiros
livros – ou do mais recente apenas publicado na Argentina, Sur –, mas também com uma tarefa crítica que atravessa alguns de
seus interesses, como por exemplo Flávio de Carvalho [que procura compor uma
deformação entre o que pode ser a imagem e a memória do corpo numa
afrontalidade com o intocável e com o não-acabado, daí A origem animal de Deus, por exemplo] e Maria Martins,
particularmente, como ela mesma ressalta, a série Amazônia [Veronica fez a curadoria da exposição de MM, no MAM-SP, em
cartaz entre julho e setembro deste ano: ‘Maria
Martins: Metamorfoses’]. Depois, ainda, seus livros traçam uma linha
modulada e pontiaguda do que vem de alguns escritores que estão entre os mais imaginativos
e inventivos no Brasil.
Penso, como exemplos, além
das narrativas de viagem próprias dos anos 1920, como bem aponta Flora Sussekind
na apresentação do livro, em alguns outros livros singulares: como Mar Paraguayo ou Meu tio Roseno, a cavalo, de
Wilson Bueno; os livros-montagem do carrasco-neutro Valêncio Xavier; José
Agrippino de Paula com seu PanAmérica;
Paulo Leminski com o retalhamento-intervenção que faz do autorretrato na série biobliográfica que compôs por todo o seu
trabalho, de Propp a Descartes, de Trótski a Narciso ou Jesus etc; a
intolerável e bem humorada viagem interior de Simplício, o personagem de A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de
Macedo, publicado em 1869; ou na impertinência radical entre jogo e colagem da narrativa
de Gerardo Mello Mourão, O Valete de
Espadas, escrita nos anos 1940 quando esteve preso nos porões do Estado
Novo e só publicado no final dos anos 1950. E agora, muito recente, concentrado
entre imaginação e força, como uma fadiga, o romance exausto e encantador de
Jorge Viveiros de Castro, A invenção do
amor, que cumpre um modo de operação pelo lado B dessa afasia de feira e
supermercado festivos que virou moda entre nós.
Por isso que um livro
absolutamente imaginativo e sem classificação precária como o de Veronica é, no
mínimo, um alento, porque provoca encontros imprevistos na recolha de imagens
inventadas como fantasmagorias entre o vazio da história e o que a história não
toca. Voltamos a Raul Bopp. Isto é, ao mesmo tempo, linguagem gritada e consciência
do impenetrável. Logo, nem monumento nem memória. Mas sim, como sugere Silvina
Rodrigues Lopes, quando a literatura é um móbile do “ser-com-os-outros”. Ou seja, quando essas
metamorfoses imprevisíveis podem gerar um pensamento que acontece na
contra-assinatura. Invenção de linguagens, desterritorialização e exigência de hospitalidade
que incitam à apropriação da des-apropriação, propondo uma apropriação antropofágica para a qual a ilegibilidade não se opõe
ao legível, pois, pelo contrário, suporta o infinito da leitura.
*Manoel Ricardo de Lima é poeta, professor da Escola de
Letras e do PPGMS [UNIRIO]. Publicou, entre outros, Entre percurso e vanguarda –
alguma poesia de Paulo Leminski [Annablume, ensaio, 2002] e Jogo
de Varetas [7Letras, narrativas, 2012].
Leia também a versão reduzida no Blog do jornal O Globo:
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