sábado, 5 de outubro de 2013

'Cinemáticos' no Museu de Arte do Rio [MAR], com Alexandre Veras



Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil
Dia 9 de outubro de 2013

O Museu de Arte do Rio, o Núcleo de Tecnologia da Imagem (N-Imagem) da Escola de Comunicação da UFRJ e a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) apresentam o seminário Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil, com coordenação do pesquisador e artista André Parente. A ação, que integra o programa MAR na Academia, é composta de debates e exibições de filmes de realizadores brasileiros contemporâneos.

A programação divide-se em catorze sessões, em que são abordadas questões que perpassam a produção fílmica em suas diversas linguagens: audiovisual, cinema marginal, cinema estrutural, cinema conceitual, cinema do corpo, cinema do dispositivo, cinema de arquivo, cinema híbrido, cinema interativo, cinema ao vivo, cine-ensaio, instruções para filmes, cinema de inversão, protocinema e transcinemas. A sincronicidade entre as experimentações dos artistas e as rupturas epistemológicas; a convergência dos meios; as transformações estéticas; e o cruzamento dos circuitos das artes plásticas e das artes da imagem em movimento são alguns dos temas debatidos.

Convidado: Alexandre Veras

Alexandre Veras (CE, 1969) foi coordenador do Alpendre-Casa de Arte, Pesquisa e Produção, onde desenvolve atividades de coordenação e curadoria de mostras, seminários, cursos, exposições, entre outros. Desde 2000 vem desenvolvendo trabalhos em documentário, vídeoarte, vídeo-dança e instalações, dentre eles: “Partida”, “Marahope 14/07” e “O Regresso de Ulisses”. Realizou o DOCTV "Vilas Volantes – o verbo contra o vento" e o longa-metragem "Linz - quando todos os acidentes acontecem".

Cinemáticos: Cinemas de Artista no Brasil
Toda quarta-feira. De 21 de agosto a 27 de novembro.
De 13h às 17h.
Auditório do MAR.
50 vagas (Distribuição de senha com uma hora de antecedência).


'Opisanie Swiata', de Veronica Stigger


Resenha publicada no jornal O Globo, Prosa & Verso, em 05 de outubro de 2013 [Segue a versão integral]

Invenções do mundo
por Manoel Ricardo de Lima*

Em Cobra Norato, Raul Bopp escreve: “Agora sim / me enfio nessa pele de seda elástica / e saio a correr mundo”. Num outro poema, Floresta, num verso solto, escreve: “A floresta não gosta de ser interrogada”. Mas aí mora o apontamento convulso de Bopp: uma tarefa da arte, desde a modernidade, e agora mais do que nunca, seria correr mundo através da profundidade animal da pele para interrogar a floresta e tentar tocar esse rodopio técnico e estético da vida diante do horror entre o dinheiro e a guerra. E, se estamos numa luta das imagens, é possível pensar numa literatura mais potente que se refaça na história, com a história, no tanto que esta é constituída e carregada de equívocos e, mais precisamente, de nonsense. O que pode quebrar um pouco com esse último estado da crítica literária, a publicidade, que tem seu maior exemplo nessa leva de “articulistas” contratados por editoras para “resenharem” sobre os livros que elas mesmas editam etc. Mas, no meio disso tudo, com alguma dignidade, a literatura ainda pode ser aquilo que, de certo modo, Joaquim Cardozo defendia: algo mais perto de uma forma-formante e da assombração.
Assim, um encontro entre um Raul Bopp destemido, um provável Oswald de Andrade, um Opalka possivelmente Roman e alguns elementos soltos – postais, reclames, fotografias, anotações, humor, um narrador imprevisto e sem propósito que esquece muitas vezes de si e mistura-se num outro, um Chivito uruguaio que pretende construir um Museu do Homem em Trânsito, um alemão amigo de nome Hans, algumas cartas, uma doença, um homem que morre, uma viagem de trem, uma viagem de navio, uma Amazônia ambivalente porque contrita e expandida, um poema-projeto achado a esmo, o mar, o deserto etc – se faz possível exatamente a partir do DIZER [quando dizer é fazer] de quem torce o empenho e o nariz, é claro, para armar uma acrobacia numa montagem deliberada em direção ao desconhecido.
É o caso do livro mais recente de Veronica Stigger, Opisanie Swiata, que pode ser lido tanto como um romance quanto como um remendo, um resto de anotação ou o que sobra do gesto da viagem como literatura. Uma espécie de tentativa de experimentar a experiência do mundo composto nessa desopressão causada pela viagem em torno de uma consciência animal, logo política: “mordo o que posso”, diz Valéry. Ou uma “máquina infernal”, como sugere Jean Cocteau. Um filho, Natanael, doente e internado num hospital, escreve ao pai e espera, ansioso e moribundo, que o pai o visite para conhecê-lo. O pai é Opalka, um polonês circunscrito em meio a guerra na Europa, a guerra do mundo – e a descoberta aflita de um filho no Brasil que vive na Amazônia onde esteve no começo do século –, toma um trem, depois um navio, e nesse traslado do deserto cruza com Bopp, um famigerado viajante descobridor de aventuras [entre outros personagens], para entender a própria selvageria. É sintomática a cena em que Bopp lhe estende um caderninho preto, como presente, depois de Opalka saber sobre a morte do filho, para fazer anotações, para que “escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que esqueceu.” e “Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”
Esse livro de Veronica tem a ver com a composição de seu trabalho, não apenas desde os primeiros livros – ou do mais recente apenas publicado na Argentina, Sur –, mas também com uma tarefa crítica que atravessa alguns de seus interesses, como por exemplo Flávio de Carvalho [que procura compor uma deformação entre o que pode ser a imagem e a memória do corpo numa afrontalidade com o intocável e com o não-acabado, daí A origem animal de Deus, por exemplo] e Maria Martins, particularmente, como ela mesma ressalta, a série Amazônia [Veronica fez a curadoria da exposição de MM, no MAM-SP, em cartaz entre julho e setembro deste ano: ‘Maria Martins: Metamorfoses’]. Depois, ainda, seus livros traçam uma linha modulada e pontiaguda do que vem de alguns escritores que estão entre os mais imaginativos e inventivos no Brasil.
Penso, como exemplos, além das narrativas de viagem próprias dos anos 1920, como bem aponta Flora Sussekind na apresentação do livro, em alguns outros livros singulares: como Mar Paraguayo ou Meu tio Roseno, a cavalo, de Wilson Bueno; os livros-montagem do carrasco-neutro Valêncio Xavier; José Agrippino de Paula com seu PanAmérica; Paulo Leminski com o retalhamento-intervenção que faz do autorretrato na série biobliográfica que compôs por todo o seu trabalho, de Propp a Descartes, de Trótski a Narciso ou Jesus etc; a intolerável e bem humorada viagem interior de Simplício, o personagem de A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1869; ou na impertinência radical entre jogo e colagem da narrativa de Gerardo Mello Mourão, O Valete de Espadas, escrita nos anos 1940 quando esteve preso nos porões do Estado Novo e só publicado no final dos anos 1950. E agora, muito recente, concentrado entre imaginação e força, como uma fadiga, o romance exausto e encantador de Jorge Viveiros de Castro, A invenção do amor, que cumpre um modo de operação pelo lado B dessa afasia de feira e supermercado festivos que virou moda entre nós.
Por isso que um livro absolutamente imaginativo e sem classificação precária como o de Veronica é, no mínimo, um alento, porque provoca encontros imprevistos na recolha de imagens inventadas como fantasmagorias entre o vazio da história e o que a história não toca. Voltamos a Raul Bopp. Isto é, ao mesmo tempo, linguagem gritada e consciência do impenetrável. Logo, nem monumento nem memória. Mas sim, como sugere Silvina Rodrigues Lopes, quando a literatura é um móbile do “ser-com-os-outros”. Ou seja, quando essas metamorfoses imprevisíveis podem gerar um pensamento que acontece na contra-assinatura. Invenção de linguagens, desterritorialização e exigência de hospitalidade que incitam à apropriação da des-apropriação, propondo uma apropriação antropofágica para a qual a ilegibilidade não se opõe ao legível, pois, pelo contrário, suporta o infinito da leitura.

*Manoel Ricardo de Lima é poeta, professor da Escola de Letras e do PPGMS [UNIRIO]. Publicou, entre outros, Entre percurso e vanguarda – alguma poesia de Paulo Leminski [Annablume, ensaio, 2002] e Jogo de Varetas [7Letras, narrativas, 2012].

Leia também a versão reduzida no Blog do jornal O Globo:

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

cleber teixeira, para elisabeth


Em 2007, fizemos um documentário sobre o Cleber Teixeira e a Noa Noa, sua editora de livros feitos em prensa manual: "Só tenho um norte:". Nada parecido com o que experimentamos naquela semana: Alexandre Veras, Demétrio Panarotto, Júlia e Manoel. E aí, um dia, Cleber nos confessou que adoraria ter nascido no Ceará. Num dia seguinte, já trabalhava muito pouco, fez isso para nós rapidamente na prensa num papel de esboço, assinou e nos deu de presente. Perdemos o Cleber neste ano de 2013, mas ele [com sua delicadeza afetiva radical e seu trabalho] continua fazendo mais do que nunca todo o sentido para o quanto pode ser a vida se levada com algum amor e afetos sinceros. 


domingo, 16 de junho de 2013

tatiana e tio onofre,

Tatiana Belinky [1919-2013]

"No entanto, quando entrego uma nova obra, eu peço uma gentileza aos editores. Por favor, publiquem rápido para que eu tenha tempo de ver. Estou com 87 anos e não sei se posso esperar até os 100. Até os 95, estou disposta, mas depois disso não me comprometo."



porque tudo ou nada começou com esse livrinho publicado em 1976, meu livro favorito da primeira infância. [Júlia]