segunda-feira, 23 de setembro de 2013

cleber teixeira, para elisabeth


Em 2007, fizemos um documentário sobre o Cleber Teixeira e a Noa Noa, sua editora de livros feitos em prensa manual: "Só tenho um norte:". Nada parecido com o que experimentamos naquela semana: Alexandre Veras, Demétrio Panarotto, Júlia e Manoel. E aí, um dia, Cleber nos confessou que adoraria ter nascido no Ceará. Num dia seguinte, já trabalhava muito pouco, fez isso para nós rapidamente na prensa num papel de esboço, assinou e nos deu de presente. Perdemos o Cleber neste ano de 2013, mas ele [com sua delicadeza afetiva radical e seu trabalho] continua fazendo mais do que nunca todo o sentido para o quanto pode ser a vida se levada com algum amor e afetos sinceros. 


domingo, 16 de junho de 2013

tatiana e tio onofre,

Tatiana Belinky [1919-2013]

"No entanto, quando entrego uma nova obra, eu peço uma gentileza aos editores. Por favor, publiquem rápido para que eu tenha tempo de ver. Estou com 87 anos e não sei se posso esperar até os 100. Até os 95, estou disposta, mas depois disso não me comprometo."



porque tudo ou nada começou com esse livrinho publicado em 1976, meu livro favorito da primeira infância. [Júlia]

quarta-feira, 29 de maio de 2013

ciranda da poesia,



Mi vida como bacteria

Cuando empecé a escasear, la orden
fue que actuara con naturalidad, que partiera
de escenarios mutuamente excluyentes –

que marcase algún cero absoluto, por
teléfono

- o que me desprendiera de todo lo anterior, y me quemase
una vez leído: me vino a la memoria el chiste
de la conversación entre dos asesinos
que fingen reconstruir el acento, los hábitos lingüísticos

de la víctima
usando las propiedades de sus gritos, pero cada vez
una pausa en la programación los distrae, haciendo que la broma
nunca acabe, y la risa
se sume al resto de tareas pendientes. Ahora se abrirán los turnos de [debate
al respecto, y si con eso
se pudiera restablecer el flujo, se sabría
que hemos sido disueltos por opiniones públicas, formateados
por la corrosión –como una muestra de laboratorio.-

Minha vida como bactéria

Quando comecei a diminuir, a ordem
foi que agisse com naturalidade, que partisse
de cenários mutuamente excludentes –

que marcasse algum zero absoluto, por
telefone

- ou que me desprendesse de tudo, antes, e me queimasse
logo depois de lido: me lembrei da piada
da conversa entre dois assassinos
que fingem reconstruir o sotaque, os hábitos linguísticos

da vítima
usando as propriedades de seus gritos, mas cada vez
uma pausa na programação os distrai, fazendo com que a piada
nunca acabe, e a risada
se junte ao resto das tarefas pendentes. Agora se abrirão os turnos de [debate
sobre isso, e se com isso
se pudesse reestabelecer o fluxo, se saberia
que temos sido dissolvidos pela opinião pública, formatados
pela corrosão – como uma mostra de laboratório.-

[poema de Aníbal Cristobo. Trad. Manoel Ricardo de Lima]
ANIBAL CRISTOBO, por Manoel Ricardo de Lima. RJ, EdUERJ, 2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

poema,


ninguém

sempre assim. todos os anos, estupidez e fingimento, nessa ordem quase exata e monstruosa. a mesma pergunta enferrujada na boca, nos dentes. sabe onde fica? o pior é que se ela pudesse morreria agora mesmo, toda branca e nua, sobre os meus calcanhares enviesados. remorso algum. morreria bem no meio da minha frase, atravessada bem no meio da frase que elaborei por tanto tempo, por tantas vidas. esta demora. os braços espalmados no chão, o rosto crespo, obsceno e as notas do dinheiro limpo, a pulseira de acrílico colorida, um vestígio de ferro velho na garganta, sabe onde fica? é sempre assim, todos os anos, estupidez e fingimento, a mesma conversa batida e mastigada muitas vezes com o chiclete vencido, os dentes pretos, a boca toda preta. disse que existe um peixe do tipo ferrugem, anisotremus virginicus, e que o peixe se parece com ela. anisotremus virginicus, repete e engasga com o limo preto que escorre do céu da boca. ela também mente. exibe o estojo novo de maquiagem, a pinça com pontinha dourada, se a gente não toma cuidado, mata. não sabe, né? claro, não sabe onde fica nada

Júlia Studart
[um poema antigo, perdido em algum lugar, que reaparece agora junto com uma foto ainda em Lisboa. melhor título, nesse tempo com Fernando Pessoa, impossível]