domingo, 30 de junho de 2013
domingo, 16 de junho de 2013
tatiana e tio onofre,
Tatiana Belinky [1919-2013]
porque tudo ou nada começou com esse livrinho publicado em 1976, meu livro favorito da primeira infância. [Júlia]
"No entanto, quando entrego uma nova obra, eu peço uma gentileza aos editores. Por favor, publiquem rápido para que eu tenha tempo de ver. Estou com 87 anos e não sei se posso esperar até os 100. Até os 95, estou disposta, mas depois disso não me comprometo."
porque tudo ou nada começou com esse livrinho publicado em 1976, meu livro favorito da primeira infância. [Júlia]
quarta-feira, 29 de maio de 2013
ciranda da poesia,

Mi vida como
bacteria
Cuando empecé a
escasear, la orden
fue que actuara
con naturalidad, que partiera
de escenarios
mutuamente excluyentes –
que marcase
algún cero absoluto, por
teléfono
- o que me
desprendiera de todo lo anterior, y me quemase
una vez leído:
me vino a la memoria el chiste
de la
conversación entre dos asesinos
que fingen
reconstruir el acento, los hábitos lingüísticos
de la víctima
usando las
propiedades de sus gritos, pero cada vez
una pausa en la
programación los distrae, haciendo que la broma
nunca acabe, y
la risa
se sume al
resto de tareas pendientes. Ahora se abrirán los turnos de [debate
al respecto, y
si con eso
se pudiera
restablecer el flujo, se sabría
que hemos sido
disueltos por opiniones públicas, formateados
por la
corrosión –como una muestra de laboratorio.-
Minha vida como
bactéria
Quando comecei a
diminuir, a ordem
foi que agisse com
naturalidade, que partisse
de cenários mutuamente
excludentes –
que marcasse algum zero
absoluto, por
telefone
- ou que me desprendesse
de tudo, antes, e me queimasse
logo depois de lido: me
lembrei da piada
da conversa entre dois
assassinos
que fingem reconstruir o
sotaque, os hábitos linguísticos
da vítima
usando as propriedades de
seus gritos, mas cada vez
uma pausa na programação
os distrai, fazendo com que a piada
nunca acabe, e a risada
se junte ao resto das
tarefas pendentes. Agora se abrirão os turnos de [debate
sobre isso, e se com isso
se pudesse reestabelecer
o fluxo, se saberia
que temos sido
dissolvidos pela opinião pública, formatados
pela corrosão – como uma
mostra de laboratório.-
[poema de Aníbal
Cristobo. Trad. Manoel Ricardo de Lima]
ANIBAL CRISTOBO, por Manoel Ricardo de Lima. RJ, EdUERJ, 2013
sexta-feira, 10 de maio de 2013
poema,
ninguém
sempre
assim. todos os anos, estupidez e fingimento, nessa ordem quase exata e monstruosa. a mesma pergunta enferrujada na
boca, nos dentes. sabe onde fica? o pior é que se ela
pudesse morreria agora mesmo, toda branca e nua, sobre os meus calcanhares
enviesados. remorso algum. morreria bem no meio da minha frase, atravessada bem
no meio da frase que elaborei por tanto tempo, por tantas vidas. esta demora.
os braços espalmados no chão, o rosto crespo, obsceno e as notas do dinheiro
limpo, a pulseira de acrílico colorida, um vestígio de ferro velho na garganta,
sabe onde fica? é sempre assim, todos
os anos, estupidez e fingimento, a mesma conversa batida e mastigada muitas
vezes com o chiclete vencido, os dentes pretos, a boca toda preta. disse que existe
um peixe do tipo ferrugem, anisotremus
virginicus, e que o peixe se parece com ela. anisotremus virginicus, repete e engasga com o limo
preto que escorre do céu da boca. ela também mente. exibe o estojo novo de
maquiagem, a pinça com pontinha dourada, se
a gente não toma cuidado, mata. não sabe, né? claro, não sabe
onde fica nada
Júlia Studart
[um poema antigo, perdido em algum lugar, que reaparece agora junto com uma foto ainda em Lisboa. melhor título, nesse tempo com Fernando Pessoa, impossível]
quarta-feira, 8 de maio de 2013
sexta-feira, 3 de maio de 2013
júlia hansen & blues,
X
O
amor gasta
ilharga, rumo
porque inventa
de novo, amor.
Suor, fruto
rosto nítido
paira um ritmo
na gruta, silêncio.
Mas se o amor gasta
temerosos, teus receios
e se o amor cria o dia
de chegarmos numa praça
em que fumo feito
o amor desfolhe
nicotina amarelando
os batentes das portas
o outono
também pode entrar, amor.
Amor pode pôr altifalantes
não adianta, não avisam
o caminho, a enxurrada.
Bicicleta.
Mas se bem amadurece
água com açúcar, dá papaia
e o amor no máximo gasta
cáries nos dentes dos
miúdos.
Sabe bem, alisar demais
nunca fez gastar o viço
nem dos pelos
do gato que te oferto no
Natal
e em seu salto matutino
sobre nossos corpos
desconhece o puído da vida.
O amor nos lambe áspero
constrói-nos olhos, digo
para ver pontes o amor
abre as portas. Cria.
O imaginário é meu armário.
Onde encontro os potes de
massa
ao redor das pilhas
enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.edições Chão da Feira, BH/Lisboa, 2013
http://www.chaodafeira.com
sábado, 20 de abril de 2013
'esse animal não quer saber de nada',
Nome de lugares: ainda
lugares sem nome.
1. Se
o nordeste do Brasil é sertão, sua lógica é a do deserto, provavelmente pensou
o Barão ao tentar que lá camelos dessem certo. Gonçalves Dias etnólogo saiu de
Fortaleza em uma corcova, logo quase um rabo de foguete. Além do cantil, na
bagagem Die Braut von Messina, de Friedrich
Schiller, livro traduzido em pausas de meio-dia. Hora sem sombra lhe ensina
hora da morte, das aparições, insinua um bárbaro grego mudo. O corpo de Dias,
dolorido pela geologia, arde na falta de areia. A Comissão das Borboletas segue
para o mapa da falência. O poeta, acusado de negligência, caiu do camelo. O
animal pela pata quebrada foi sacrificado. Funda-se uma comunidade.
2. Wolverine
caminha seguro pelas noites do Pirambu via Marvel. Em outra topografia, ele
passearia pela rua São Serafim, Leste-Oeste a direita. Lá, 1986, veria o
episódio do homem ao telefone público, o pai sem rosto, incluindo a bola
cortada e o jogo interrompido. Seria rebatizado por Volver, Volvin ou Rewolver. Às escondidas:
férias
sem lâminas,
garras
e prestobarba.
restos
de retirante em farda de ginásio.
homens
em pele de camelo, ambulantes,
vagam
em busca do polegar do camarada
nova
partitura para acidente de trabalho
não
apenas Volvin, Burle Max
e
um vira-lata chamado Rex,
ocupam
hoje o que um dia foi um jardim.
de
torso nu, cruza a rua, reclamando o dedo
com
palavras de Cristo, de Marx,
do
homem ao telefone público
e
do pequeno vendedor de garrafas
em
segredo
Uma das punições para Gonçalves Dias
foi a de ser nome de rua sem asfalto, de esgoto a céu aberto, conhecida apenas
por Gongon. Se alguém dissesse: Ja, diese Hallen selbst bespritzte Blut,
traduziriam em três versões por chame a
polícia, saia daqui ou esconda esta câmera.
3. “Balançou,
não deu certo, não! Pois não passou de ilusão.../ Eles trouxeram o balanço do
deserto/ Mas o gingado não deu certo/ Pra cruzar o nosso chão”, diz o coro-comédia
da Leopoldinese, na Sapucaí. Um carnaval secreto estava na tradução de
Schiller, na comunidade fundada a sangue de camelo, na Comissão das Borboletas:
sobras da expedição de Gonçalves, no tum-tum
do terreiro, do coração. Na conta de Volvin
na bodega, a ser pago em dólar, pela Marvel. Em uma vesga recherche há algo de Balbec em um Pirambu. No cachorro perdido, no nome
árabe de uma avó e no homem anônimo, esfaqueado, em um dedo-duro, ainda sussurrando
suas verdades no telefone público.
[com as vozes de Zilma e Sérgio]
poema de Eduardo Jorge.
porque talvez, mesmo sem crença ou motivo,
a gente deveria voltar.
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