quarta-feira, 8 de maio de 2013
sexta-feira, 3 de maio de 2013
júlia hansen & blues,
X
O
amor gasta
ilharga, rumo
porque inventa
de novo, amor.
Suor, fruto
rosto nítido
paira um ritmo
na gruta, silêncio.
Mas se o amor gasta
temerosos, teus receios
e se o amor cria o dia
de chegarmos numa praça
em que fumo feito
o amor desfolhe
nicotina amarelando
os batentes das portas
o outono
também pode entrar, amor.
Amor pode pôr altifalantes
não adianta, não avisam
o caminho, a enxurrada.
Bicicleta.
Mas se bem amadurece
água com açúcar, dá papaia
e o amor no máximo gasta
cáries nos dentes dos
miúdos.
Sabe bem, alisar demais
nunca fez gastar o viço
nem dos pelos
do gato que te oferto no
Natal
e em seu salto matutino
sobre nossos corpos
desconhece o puído da vida.
O amor nos lambe áspero
constrói-nos olhos, digo
para ver pontes o amor
abre as portas. Cria.
O imaginário é meu armário.
Onde encontro os potes de
massa
ao redor das pilhas
enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.edições Chão da Feira, BH/Lisboa, 2013
http://www.chaodafeira.com
sábado, 20 de abril de 2013
'esse animal não quer saber de nada',
Nome de lugares: ainda
lugares sem nome.
1. Se
o nordeste do Brasil é sertão, sua lógica é a do deserto, provavelmente pensou
o Barão ao tentar que lá camelos dessem certo. Gonçalves Dias etnólogo saiu de
Fortaleza em uma corcova, logo quase um rabo de foguete. Além do cantil, na
bagagem Die Braut von Messina, de Friedrich
Schiller, livro traduzido em pausas de meio-dia. Hora sem sombra lhe ensina
hora da morte, das aparições, insinua um bárbaro grego mudo. O corpo de Dias,
dolorido pela geologia, arde na falta de areia. A Comissão das Borboletas segue
para o mapa da falência. O poeta, acusado de negligência, caiu do camelo. O
animal pela pata quebrada foi sacrificado. Funda-se uma comunidade.
2. Wolverine
caminha seguro pelas noites do Pirambu via Marvel. Em outra topografia, ele
passearia pela rua São Serafim, Leste-Oeste a direita. Lá, 1986, veria o
episódio do homem ao telefone público, o pai sem rosto, incluindo a bola
cortada e o jogo interrompido. Seria rebatizado por Volver, Volvin ou Rewolver. Às escondidas:
férias
sem lâminas,
garras
e prestobarba.
restos
de retirante em farda de ginásio.
homens
em pele de camelo, ambulantes,
vagam
em busca do polegar do camarada
nova
partitura para acidente de trabalho
não
apenas Volvin, Burle Max
e
um vira-lata chamado Rex,
ocupam
hoje o que um dia foi um jardim.
de
torso nu, cruza a rua, reclamando o dedo
com
palavras de Cristo, de Marx,
do
homem ao telefone público
e
do pequeno vendedor de garrafas
em
segredo
Uma das punições para Gonçalves Dias
foi a de ser nome de rua sem asfalto, de esgoto a céu aberto, conhecida apenas
por Gongon. Se alguém dissesse: Ja, diese Hallen selbst bespritzte Blut,
traduziriam em três versões por chame a
polícia, saia daqui ou esconda esta câmera.
3. “Balançou,
não deu certo, não! Pois não passou de ilusão.../ Eles trouxeram o balanço do
deserto/ Mas o gingado não deu certo/ Pra cruzar o nosso chão”, diz o coro-comédia
da Leopoldinese, na Sapucaí. Um carnaval secreto estava na tradução de
Schiller, na comunidade fundada a sangue de camelo, na Comissão das Borboletas:
sobras da expedição de Gonçalves, no tum-tum
do terreiro, do coração. Na conta de Volvin
na bodega, a ser pago em dólar, pela Marvel. Em uma vesga recherche há algo de Balbec em um Pirambu. No cachorro perdido, no nome
árabe de uma avó e no homem anônimo, esfaqueado, em um dedo-duro, ainda sussurrando
suas verdades no telefone público.
[com as vozes de Zilma e Sérgio]
poema de Eduardo Jorge.
porque talvez, mesmo sem crença ou motivo,
a gente deveria voltar.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
viêt-công,
['Fundo de rumor mais macio que o silêncio', de Elida Tessler]
viêt-công
lui vuole sapere: sono
in grado di mantenere un
segreto? lui
vuole sapere se il
segreto può
guarirlo, disturbarlo,
avvicinarlo. parla
uno, due dialetti
che nessuno capisce
e conserva l’abitudine
di dare da mangiare
alle anatre al mattino. a
volte si scopre a far calcoli
di felicità
su un pezzo di
terra in brasile, due
birre al giorno, tè
con zenzero e
miele di rosmarino.
gli amici sono andati a
vivere in
marocco. lui
pure non
sembra un francese e
non lo sa mai
molto bene cosa
è venuto a fare in
mezzo a tanta
gente. lui pure
non dice, ma il
segreto, come tutto
il resto, non è che
un’invenzione. lui
non dice nemmeno
se ha fatto un’amicizia
o se muore un
po’ ogni giorno
più in fretta di
tutti noi.
[Júlia Studart, trad. Davi Pessoa]
viêt-công
ele
quer saber: são
capazes
de guardar
segredo?
ele
quer
saber se o
segredo
pode
curar,
provocar uma
revira-volta,
trazê-lo
pra
mais perto. fala
um,
dois dialetos
que
ninguém entende
e
conserva o hábito
de
alimentar
patos
pela manhã. às
vezes
é flagrado
tecendo
cálculos
de
alegria
num
pedaço de
terra
no brasil, duas
cervejas
por dia, chá
com
gengibre e
mel
de rosmaninho.
os
amigos foram
morar
no
marrocos.
ele
também
não
parece
francés e
nunca
sabe
muito
bem, não
faz
idéia do que
veio
fazer aqui no
meio
de tanta
gente.
ele também
não
diz, mas o
segredo,
como todo
o
resto, pode ser
apenas
invenção. ele
também
não diz
se
fez um amigo
ou
se morre um
pouco
a cada dia
mais
rápido que
todos
nós.
[Júlia Studart. Poema publicado na página RISCO, editada por Carlito Azevedo, Prosa & Verso, O Globo,
25.06.2011]
sábado, 23 de março de 2013
ale, o prófi: 23.03.1969
tome nota
por todas as
ruas
onde ando
sozinho
com você
e você
se é que se
lembra
(se lembra)
olha assim
pra mim
como capa de
revista
pelo
rabo-do-olho
de artista,
e sorri.
eu acho tudo
muito legal
mas a
verdade
é que o nome
normal disso aí
é
s-a-u-d-a-d-e;
pois bem:
sei que vou
sozinho
sei que vou
também sozinho
mas acontece
que parece
que você
é como se é
que fosse
o próprio
meu caminho.
torquato neto
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