sexta-feira, 3 de maio de 2013

júlia hansen & blues,













X

O amor gasta
ilharga, rumo
porque inventa
de novo, amor.
Suor, fruto
rosto nítido
paira um ritmo
na gruta, silêncio.

Mas se o amor gasta
temerosos, teus receios
e se o amor cria o dia
de chegarmos numa praça
em que fumo feito
o amor desfolhe
nicotina amarelando
os batentes das portas
o outono
também pode entrar, amor.
Amor pode pôr altifalantes
não adianta, não avisam
o caminho, a enxurrada. Bicicleta.

Mas se bem amadurece
água com açúcar, dá papaia
e o amor no máximo gasta
cáries nos dentes dos miúdos. 
Sabe bem, alisar demais
nunca fez gastar o viço
nem dos pelos
do gato que te oferto no Natal
e em seu salto matutino
sobre nossos corpos
desconhece o puído da vida.

O amor nos lambe áspero
constrói-nos olhos, digo
para ver pontes o amor
abre as portas. Cria.
O imaginário é meu armário.
Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.



edições Chão da Feira, BH/Lisboa, 2013
http://www.chaodafeira.com

sábado, 20 de abril de 2013

'esse animal não quer saber de nada',












Nome de lugares: ainda lugares sem nome.  


     1. Se o nordeste do Brasil é sertão, sua lógica é a do deserto, provavelmente pensou o Barão ao tentar que lá camelos dessem certo. Gonçalves Dias etnólogo saiu de Fortaleza em uma corcova, logo quase um rabo de foguete. Além do cantil, na bagagem Die Braut von Messina, de Friedrich Schiller, livro traduzido em pausas de meio-dia. Hora sem sombra lhe ensina hora da morte, das aparições, insinua um bárbaro grego mudo. O corpo de Dias, dolorido pela geologia, arde na falta de areia. A Comissão das Borboletas segue para o mapa da falência. O poeta, acusado de negligência, caiu do camelo. O animal pela pata quebrada foi sacrificado. Funda-se uma comunidade.

     2. Wolverine caminha seguro pelas noites do Pirambu via Marvel. Em outra topografia, ele passearia pela rua São Serafim, Leste-Oeste a direita. Lá, 1986, veria o episódio do homem ao telefone público, o pai sem rosto, incluindo a bola cortada e o jogo interrompido. Seria rebatizado por Volver, Volvin ou Rewolver. Às escondidas:

férias sem lâminas,
garras e prestobarba.
restos de retirante em farda de ginásio.
homens em pele de camelo, ambulantes,
vagam em busca do polegar do camarada
nova partitura para acidente de trabalho
não apenas Volvin, Burle Max
e um vira-lata chamado Rex,
ocupam hoje o que um dia foi um jardim.
de torso nu, cruza a rua, reclamando o dedo
com palavras de Cristo, de Marx,
do homem ao telefone público
e do pequeno vendedor de garrafas
em segredo

Uma das punições para Gonçalves Dias foi a de ser nome de rua sem asfalto, de esgoto a céu aberto, conhecida apenas por Gongon. Se alguém dissesse: Ja, diese Hallen selbst bespritzte Blut, traduziriam em três versões por chame a polícia, saia daqui ou esconda esta câmera.

     3. “Balançou, não deu certo, não! Pois não passou de ilusão.../ Eles trouxeram o balanço do deserto/ Mas o gingado não deu certo/ Pra cruzar o nosso chão”, diz o coro-comédia da Leopoldinese, na Sapucaí. Um carnaval secreto estava na tradução de Schiller, na comunidade fundada a sangue de camelo, na Comissão das Borboletas: sobras da expedição de Gonçalves, no tum-tum do terreiro, do coração. Na conta de Volvin na bodega, a ser pago em dólar, pela Marvel. Em uma vesga recherche há algo de Balbec em um Pirambu. No cachorro perdido, no nome árabe de uma avó e no homem anônimo, esfaqueado, em um dedo-duro, ainda sussurrando suas verdades no telefone público.

[com as vozes de Zilma e Sérgio]  

poema de Eduardo Jorge.
porque talvez, mesmo sem crença ou motivo, a gente deveria voltar. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

viêt-công,











['Fundo de rumor mais macio que o silêncio', de Elida Tessler]
viêt-công
lui vuole sapere: sono
in grado di mantenere un
segreto? lui
vuole sapere se il
segreto può
guarirlo, disturbarlo,
avvicinarlo. parla
uno, due dialetti
che nessuno capisce
e conserva l’abitudine
di dare da mangiare
alle anatre al mattino. a
volte si scopre a far calcoli
di felicità
su un pezzo di
terra in brasile, due
birre al giorno, tè
con zenzero e
miele di rosmarino.

gli amici sono andati a
vivere in
marocco. lui
pure non
sembra un francese e
non lo sa mai
molto bene cosa
è venuto a fare in
mezzo a tanta
gente. lui pure
non dice, ma il
segreto, come tutto
il resto, non è che
un’invenzione. lui
non dice nemmeno
se ha fatto un’amicizia
o se muore un
po’ ogni giorno
più in fretta di
tutti noi.

[Júlia Studart, trad. Davi Pessoa]


viêt-công


ele quer saber: são
capazes de guardar
segredo? ele
quer saber se o
segredo pode
curar, provocar uma
revira-volta, trazê-lo
pra mais perto. fala
um, dois dialetos
que ninguém entende
e conserva o hábito
de alimentar
patos pela manhã. às
vezes é flagrado
tecendo cálculos
de alegria
num pedaço de
terra no brasil, duas
cervejas por dia, chá
com gengibre e
mel de rosmaninho.

os amigos foram
morar no
marrocos. ele
também não
parece francés e
nunca sabe
muito bem, não
faz idéia do que
veio fazer aqui no
meio de tanta
gente. ele também
não diz, mas o
segredo, como todo
o resto, pode ser
apenas invenção. ele
também não diz
se fez um amigo
ou se morre um
pouco a cada dia
mais rápido que
todos nós.

 [Júlia Studart. Poema publicado na página RISCO, editada por Carlito Azevedo, Prosa & Verso, O Globo, 25.06.2011]

sábado, 23 de março de 2013

ale, o prófi: 23.03.1969



tome nota

por todas as ruas
onde ando sozinho
com você
e você
se é que se lembra
(se lembra)
olha assim pra mim
como capa de revista
pelo rabo-do-olho
de artista,
e sorri.

eu acho tudo muito legal
mas a verdade
é que o nome normal disso aí
é
s-a-u-d-a-d-e;
pois bem:
sei que vou sozinho
sei que vou também sozinho
mas acontece
que parece
que você
é como se é que fosse
o próprio meu caminho.

torquato neto