sábado, 23 de março de 2013

ale, o prófi: 23.03.1969



tome nota

por todas as ruas
onde ando sozinho
com você
e você
se é que se lembra
(se lembra)
olha assim pra mim
como capa de revista
pelo rabo-do-olho
de artista,
e sorri.

eu acho tudo muito legal
mas a verdade
é que o nome normal disso aí
é
s-a-u-d-a-d-e;
pois bem:
sei que vou sozinho
sei que vou também sozinho
mas acontece
que parece
que você
é como se é que fosse
o próprio meu caminho.

torquato neto

sábado, 16 de março de 2013

frederico,


Frederico

Esses dias um amigo me disse triste e com raiva que ouviu de uma amiga que dinheiro é uma coisa íntima. Que havia escrito algo sobre isso porque entendeu que de fato a amiga tem razão. Disse que me enviaria o texto, que não era nada muito elaborado, que era muito mais o desenho de uma memória que – segundo ele – tinha a ver com uma cidade e uma vida que podia ter havido antes do dinheiro. Na hora em que o ouvia tentei elaborar para mim mesmo algo mais sofisticado, tentei partir da imagem de duas crianças que corriam na praça em direção a nada, bem do nosso lado, enquanto alguém as chamava pelos nomes. Mas não era apenas isso. Fiquei pensando numa laceração, ou seja, fiquei pensando acerca de uma economia íntima do dinheiro que rege de fato as circunstâncias mais ordinárias da vida de todo mundo, a minha, a dele, a das pessoas ao redor, daquelas duas crianças que correm e não atendem alguém que as chama pelos próprios nomes.
Tudo isso tem a ver, pensei ainda olhando forte os olhos e a voz de meu amigo que se envolvia com o que dizia, cada vez mais, muito simplesmente com uma guerra que podemos chamar de uma lei de posse e de uma violência moral e estúpida com nossos próprios corpos. A que, a quem e como pertencemos a que e a quem quando a dimensão de toda nossa anterioridade pode ser uma dádiva futura de nossa próxima dívida? 
E acabo de ler o texto que ele me envia com um aviso de que é um texto torto. Esta palavra não desgrudou mais de mim enquanto lia devagar cada pedaço do que tentou me dizer antes. Torto tem a ver com o diabo ou, melhor, com uma proposta diferente para confrontar toda normalidade que aparece todos os dias pra nós como um convite qualquer.
O texto, de fato, me confronta com a cidade que conheci como uma esfera aberta, fui recebido por ela muito à toa: cheguei ali aos 15 anos, no Álvaro Weyne, perto do Bairro Ellery, vizinho ao Monte Castelo, no final da rua Olavo Bilac numa zona de lama preta e abandono amoroso. Foi um começo estranho, não gosto dos poemas de Olavo Bilac, não gosto desse nome puro. Mas a cidade tem nome de forte e quero contar a meu amigo, porque seu texto torto me fez perder o pudor, que nela entendi que estava diante de tudo o que tinha: minha imensa solidão e meu próprio cadáver. E que aos pouquinhos, nessa cidade plena de anterioridade, descobri as coisas mais intensas de minha vida: os melhores amigos que carrego comigo numa expandida e convicta imaginação de que todas as cicatrizes não se transferem.
Gosto de pensar nessa cidade como um lugar afetivo, ela é a minha moeda falsa. Que um dia vai ser possível voltar a andar na rua como fiz tantas vezes, encontrar alguém que nunca vi e nunca ouvi a voz e mover ali, nos poucos minutos que nos é dado a cada dia, um abraço e um pouco de escuta e conversa. Sei o quanto é fundamental não adiar isso e trocar todos os gestos intensamente como uma forma amorosa de coragem: ter sempre à mão algo a alguém antes que nos falte tempo. Muitas vezes tenho medo de perder a fala porque algo se impôs entre mim e o mundo, tenho medo de não saber responder o que é o morto.
E ainda penso em meu amigo e suas superfícies de vinco e fome, com apetite de vida. Quero dizer a ele que o dinheiro, que de tão forte nos rouba a tudo, até mesmo o direito ao nosso mais saliente segredo, talvez seja a nossa grande extimidade: porque expõe a víscera fingida de toda negação do outro. Talvez não possamos mesmo fazer nada contra isso, mas sei que ainda preferimos pensar o tempo inteiro que sim, porque o outro é sempre o lugar da paixão e do amor, e porque conseguimos nos concentrar em cinco ou seis ou sete coisas do mundo ao mesmo tempo.
E aí, quero dizer ao meu amigo depois de ler o texto que ele me enviou, muito devagar, que entendo que é preferível muitas vezes correr em direção a nada, esquecer propriamente que temos um nome e ter como intimidade apenas uma pequena convicção: a de que ainda podemos mudar a cidade que escolhemos pra morrer.

Esse texto, 'Frederico', faz parte de um trabalho em construção intitulado 'Meus amigos falam muito' numa parceria com Fred Benevides. [manoel ricardo de lima]

domingo, 10 de março de 2013

birosca,



















geografias aéreas
da rua joaquim nabuco 1545

para o guga de castro, o penúltimo

mar

aceito a palavra, mas
é vaga. a vida é aguda
perigosa difícil e
não sei até quando
esta rua é uma descida
pro mar

ao contrário, na
contramão, só alguém
completamente
tonto poderia subir
com a certeza de
encontrar uma
passagem
diante de ‘uma das
cancelas do mundo’
e de uma ‘comunidade
pequena mas
corajosa’

porque falo de
asilo. porque arrisco
um beijo  

júlia studart


sertão

não há diabo, deus
ou arre-égua, só as
zonas cortadas da
avenida escura  

como escura é
toda a cidade em
guerra
‘assombrando o
mundo como a mais
avançada de todas as
estações experimentais’

– estamos sempre
na moda ou aqui não
se vive muito bem –

a avenida vem do
parque até o muro, mas
antes do muro é possível
virar à direita, antes do
fim é possível polir
o deserto e não ficar
imune

manoel ricardo de lima

quarta-feira, 6 de março de 2013

lançamentos em porto alegre,


suplemento pernambuco,


PERNAMBUCO, Suplemento Cultural [Março/2013]. Entrevista

A literatura como uma armadilha a ser construída
por Yasmin Taketani              

Textos breves, impregnados de tensão, cujos enredos nem sempre são revelados e os personagens, muitas vezes, não possuem nome, origem, presente ou futuro. Assim são as narrativas que compõem Jogo de varetas(7Letras), de Manoel Ricardo de Lima, e que dialogam constantemente com o jogo em si: o risco de manejar varetas pontiagudas e o breve instante em que um erro leva a brincadeira ao fim. Simultaneamente, o escritor, nascido em Parnaíba (PI), em 1970, lançou uma nova edição de As mãos(7Letras), em que o protagonista-narrador permanece isolado em sua casa após ter sido abandonado pela mulher e se coloca em guerra contra si mesmo e o mundo, restando a ele rememorar a felicidade.
Assim como espera e — à medida que suas histórias não são dadas de bandeja — exige que o leitor interfira nesses livros, Lima, que atualmente vive no Rio de Janeiro, onde é professor de literatura brasileira na UNIRIO, está constantemente fazendo intervenções em seu trabalho e buscando nas impossibilidades da língua e da forma distância de uma “literatura permitida”. Autor ainda, entre poesia e prosa, de Embrulho e Quando todos os acidentes acontecem, Manoel Ricardo de Lima fala nesta entrevista sobre a “implicação” que procura criar em seus livros e critica o conformismo predominante na literatura.

Os textos de Jogo de varetas possuem a tensão e a dinâmica características desse jogo: são curtos, de duração mínima, como os instantes breves mas decisivos que marcam o jogo. Em que momento a relação com o jogo surgiu para articular os textos?
Procurava numa loja de brinquedos um presente para dar a um afilhado, Lorenzo, que hoje tem cinco anos. Sem querer cheguei num jogo de varetas de plástico, sem pontas, sem risco algum. Não comprei o jogo pra ele, claro. Compramos dinossauros, que parecem mais vivos. Mas isso me colocou um problema para os impasses do corpo e sua aderência ao mundo. E, grosso modo, também, não posso desprezar a ideia de que toda literatura é jogo. Ao contrário, assumo: é jogo alargado. E é aí que está qualquer noção de risco, de azar, de acidente, de fissura e de espessura, por exemplo. Por isso imagino que todo o meu trabalho, desde o começo, tem a ver um pouco com essa ideia de traçar uma linha impertinente em busca de uma “terceira forma”, de uma “outra coisa”. Sempre penso nas impossibilidades da língua e nas impossibilidades da forma. Assim, a partir dessas impossibilidades, escapo em direção a um trabalho que tenha a ver diretamente com uma contaminação para tentar compor uma disseminação entre a máquina social e a máquina técnica. E esse pequeno achado irrisório, do jogo de varetas de plástico, foi uma espécie de clave pra eu começar a elaborar esse conjunto de peças que se perguntam o tempo inteiro como provocar intervenções críticas no funcionamento absurdo dessa engrenagem em que estamos metidos até o pescoço.

Sem enredo explícito, com personagens dos quais pouco sabemos e com narradores que mais colocam dúvidas sobre suas histórias do que apresentam fatos, as narrativas de Jogo de varetas são “fugidias” e o sentido muitas vezes escapa. Mais do que um enredo, imagens e sensações marcam os textos. O que impulsiona sua escrita nessa direção?
Eu penso, sem parar, que toda literatura não é senão uma das armadilhas que temos para constituir margens de manobra do político no mundo agora. Mais ou menos seguindo a pista de Kafka: que escrevia para não morrer ou, pelo menos, para morrer de outra maneira; e que disse que não vivemos num mundo destruído, mas transtornado, onde tudo racha e estala. É esta movência transtornada que me interessa tocar. Tento criar pontos de estrangulamento do sentido e algumas séries de interferências na linha reta do progresso e na manutenção da catástrofe operadas pela vida presente. Quero criar um tempo quando o sentido colapsa, entra em colapso. Acho que é por isso que nunca penso em construir uma explicação, mas sim uma implicação com a desordem do mundo (e não para ordená-la) para armar um pensamento mais lacerado sobre esse tempo em que estamos, em que somos. Gosto da ideia de que meu trabalho pode ir em direção à armadilha do pensamento também como uma convicção do político: o que é, quando é, como é, onde é, etc., estar no mundo. De algum modo, e com força, atacar a lógica do tempo e da história, desfazer as cronologias e sugerir algumas vacilações, acidentes e sobrevivências.

A partir desta proposta, qual a relação que você pretende estabelecer com o leitor?
Não tenho como pensar no leitor enquanto trabalho, nem quero saber se ele existe. E acho que se um dia quiser construir relações com um suposto leitor devo de fato começar a fazer outra coisa, porque provavelmente terei me tornado um negociador ou um arrivista. Gosto muito do que diz a Silvina Rodrigues Lopes no seu livro Literatura, defesa do atrito: “é importante indagar de perto: trata-se da adaptação de grande parte daqueles que se apresentam como escritores às condições institucionais dominantes e ao mercado, o que significa que não produzem senão simples objetos de consumo, ao nível de qualquer outro artigo de supermercado”. Ou seja, estou fora. E o leitor, para mim, é sempre aquele que vem, e não aquele que lê apenas o que está na prateleira mais próxima e na altura de seus olhos.

As mãos pode ser lido como uma novela ou como textos autônomos e Jogo de varetas é composto por narrativas curtas, de linguagem poética. A questão dos gêneros textuais é uma preocupação sua — ainda que seja para negá-los? As formas de narrativa tradicionais já não conseguem dar conta da realidade?
André Malraux, em seu O museu imaginário (1965), rearmava a ideia da “ilusão das coisas representadas” no instante em que a arte moderna se problematiza como aquilo que leva a nada. Isto é a modernidade: aquilo que leva a nada. Os gêneros já estavam todos rachados ali, nessa emboscada. E acho que todas as insistências nessas discussões agora — dos gêneros, de literatura e realidade, das narrativas tradicionais ou a tentativa desvairada de encontrar um livro que demarque uma geração — não passam de sintomas precários do mercado editorial para a manutenção desse lugar fabricado, meio insosso, que se costuma chamar de “cena literária”. Expressão que me parece um contrassenso; ainda mais se entendemos que toda literatura não é senão obs-cena, ou seja, está fora da cena. A minha preocupação é que meus textos possam se manter longe dessa literatura permitida e possam expandir os usos autônomos da palavra até o ponto mais violento de sua dilaceração. Gosto de imaginar que, com eles, posso montar um cinema, rasgar uma parede e expandir uma imagem; gosto de mover meu trabalho numa a-funcionalidade entre as formas de vida do mundo presente e a vida das formas como uma aventura.

Na “Ameaça”, texto introdutório que abre Jogo de varetas, você escreve que “agora, vende-se varetas de plástico e sem ponta (...), logo não furam (...), não têm risco algum”. É possível traçar aí um paralelo com a literatura brasileira contemporânea? Falta um trabalho de linguagem mais radical, arriscar e experimentar mais?
Sempre vai faltar, ainda mais quando o nível de recusa anda baixíssimo. Mas o que me perturba é que chamam de literatura brasileira contemporânea apenas aquilo que aparece nos jornais ou nas revistas quase sempre comprometidos em noticiar a oferta do dia que sai nas resenhas dos próprios blogs e sites de grandes editoras. E aparecem coisas terrivelmente conservadoras e tardias como se fossem novidade (mas aí, é bom que se diga, novidade não é o mesmo que “novo”), espalhando aos quatro ventos todo o lugar-comum que este circuito fragilizado solicita. O leitor médio é domesticado por táticas de venda e consumo. Depois, este país sofre do mal da distância, é enorme e geralmente emperrado por causa de políticas públicas cretinas e com a maior parte de sua população vivendo sob uma “placa de chumbo de miséria” (que é uma potente imagem dita pelo Carlito Azevedo). Fica muito fácil conformar qualquer série numa vizinhança geográfica, econômica, noticiosa e praticamente oportunista. E mais fácil ainda conformá-la goela abaixo de nosso sistema provinciano a partir do interesse de algumas editoras ou revistas estrangeiras que determinam até a idade dos autores que pretendem publicar. A “ameaça” de meu livro é muito mais a mim mesmo, não posso esquecer duas pequenas coisas que a Silvina R. Lopes diz melhor do que eu: 1 - “É preciso impedir que a banalidade que aparece hoje consensualmente como literatura não se arrogue em breve um direito de exclusividade” e 2 - “Quando um escritor aceita o lugar de símbolo, dispondo-se a ser homenageado pelo poder político, aceita uma forma de cooperação com o inimigo, colocando-se a si próprio contra a obra que escreveu, se ela existir”.

Apesar de seus últimos trabalhos serem em prosa, há uma proximidade com a poesia e mesmo elementos, temas e um estilo que podem ser observados em Quando todos os acidentes acontecem, por exemplo. Como é a relação entre o poeta e o prosador?
Prosador é aquele que experimenta e inventa com a linguagem para provocar uma temporalidade impermanente, e não aquele que conta historinhas firmadas num enredo com começo, meio, fim, lugar e enfado. E entendo o poeta da mesma maneira. O que produzem, um e outro, é isso que podemos chamar de POESIA, ou seja, trabalho de poeta: “uma maneira de sair da maioria”. Se entendemos que “toda poesia é destituição”, ou seja, queda; e se a prosa não passa dessa queda do poema no comezinho, no quase nada, no prosaico, não é preciso ir muito longe para dizer que não há relação, porque não há nenhuma diferença. Meus livros perseguem um pouco isso, todos, sem exceção. Leminski serve bem como exemplo. As leituras críticas de seu trabalho são tão simplórias e quase anódinas, porque separam o poeta do prosador, o poeta do ensaísta, o ensaísta do biógrafo etc. Ora, o Leminski fez tudo numa zona contaminada como forma de resistência para enfrentar a adaptação e a domesticação do pensamento. Mas mesmo assim, em nome de uma acessibilidade recorrente, alocam seu trabalho num lugar conformado e funcional e perdem de vista sua ironia afirmativa. Tudo o que me interessa propor e discutir gira em todos os meus livros, faz girar os meus livros. O meu esforço é para não escrever livros ingênuos, porque vivemos num tempo em que não podemos escrever livros ingênuos.