terça-feira, 18 de dezembro de 2012
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Resenha, "jogo de varetas" / "as mãos" [O Globo]
Jornal O Globo, caderno Prosa & Verso, em 1 de dezembro de 2012
Escritor lança
livros que fazem da imprecisão um recurso narrativo, com a cadência poética das
cenas se sobrepondo aos enredos
Por Maria
Esther Maciel*
Manoel Ricardo de Lima sempre foi
um escritor avesso aos modelos legitimados de narrativa, poema e ensaio.
Transitando livremente em diferentes formas de escrita, publicou livros que se
desviam da noção fixa de gênero literário, seja por mesclar registros textuais,
seja por criar outra coisa, difícil de definir com precisão. Esse é o caso dos
dois volumes que acaba de lançar pela editora 7Letras: “As mãos”, uma novela
que também pode ser lida como um conjunto de escritos avulsos, e “Jogo de
varetas”, constituído de 23 pequenos textos poético-narrativos, associados pelo
autor às hastes coloridas de um jogo de varetas.
O primeiro livro já tinha sido
publicado em 2003 e 2006. Desde a primeira edição, sofreu sucessivas
intervenções de artistas visuais e sonoros que releram fragmentos da obra a
partir de distintos enfoques criativos. Segundo o autor, que hoje é professor
de literatura brasileira da UniRio, o livro acabou por se tornar outro graças a
essas interferências e à releitura feita por ele mesmo. A base de sustentação
do livro, porém, continuou a mesma: uma cidade em guerra e um narrador
solitário enclausurado dentro de casa, ruminando imagens e passagens de uma
história de amor. Não existe um enredo preciso: cabe ao leitor depreender das
cenas uma possível narrativa. O que se sabe é que o protagonista-narrador — “um
sujeito esguio, magro, com fome e sede, barba rala e fedorenta” — teve uma
doença e uma aposentadoria precoce, foi abandonado pela mulher, que lhe deixou
um bilhete enigmático antes de partir, e mantém como único consolo a memória
dos tempos de felicidade vividos com ela.
A ênfase é dada aos aspectos
sensoriais da linguagem, ao encadeamento poético das cenas e ao torvelinho
interno do eu que narra. Presente e passado, dentro e fora, proximidade e
distância se confundem no texto, ao ponto de o narrador dizer: “a cidade também
é dentro de casa”. A isso se soma a presença rarefeita de dados factuais, de
ação narrativa e de elementos que possam garantir um solo, digamos, mais
realista para a história. A realidade é evocada aqui e ali, mas sempre de
maneira turva. Daí o uso frequente, pelo narrador, de termos como “talvez”, “me
parece”, “provavelmente”, “acho”, “creio”, “quem sabe” para falar do que se
passa lá fora. Em suas palavras: “Lá fora é longe, uma distância quase
imperceptível, esta.”
A imprecisão como recurso
narrativo é também um traço constitutivo de “Jogo de varetas”. Os escritos que
compõem o livro são curtos e de formatos variados. As vírgulas, usadas em
profusão, conferem um ritmo peculiar às frases. As histórias também não
apresentam enredo explícito, embora contenham dados referenciais capazes de
nortear, até certo ponto, o leitor. Em “Pressa”, por exemplo, o tema é uma
caixa azul de biscoitos dinamarqueses que chegou pelo correio, sem que fosse
esperada; mas a história que envolve esse objeto e esse acontecimento é
incerta, ficando no plano das suposições. Já em “O feltro verde da mesa de
bilhar”, a descrição do ambiente e dos homens que jogam bilhar ganha vida e
movimento, aproximando-se da narrativa cinematográfica.
Outro detalhe que chama a atenção no
livro é a composição dos personagens. Em geral, não têm nome ou não sabem que
nome têm. Os nomes próprios se explicitam apenas em “O lugar da atenção” e em
“Todos os dias, quando o céu aparece”, cujo narrador-personagem se identifica
como “Oito”. Há alguns personagens bem definidos, como a velha cega da
narrativa “Amém!”, a meu ver, a melhor do livro. No conjunto, como observou
Veronica Stigger na apresentação do volume, os personagens se encontram em
estado de deslocamento e desamparo, “como se ainda não tivessem se encontrado
ou encontrado seu lugar no mundo”. E o mundo, assim como o cenário de “As
mãos”, está num campo de guerra. Daí que a vida, para eles, se defina como um
exercício de sobrevivência e uma experiência feita, sobretudo, de erros. Em
outras palavras, um jogo.
Percebe-se,
pela arquitetura do livro e pelos requintes da linguagem, que Manoel Ricardo de
Lima é, antes de tudo, poeta. Mesmo quando faz um texto todo em diálogos, como
na penúltima parte do volume, não abre mão da poesia. Sua prosa é prosa de
poeta, não de prosador. Por isso os textos causam estranhamento e desafiam o
entendimento do leitor. Cabe a este entrar no jogo e tentar preencher, com a
imaginação, os finais inconclusos das narrativas e estabelecer possíveis nexos
entre elas. O que nem sempre é fácil nestes tempos de culto a uma literatura
que traz tudo pronto, mastigado, para seus leitores.
“As mãos” e “Jogo
de varetas” são livros singulares, que não fazem concessão aos imperativos do
mercado, mas se afirmam como resistência ao que se espera, hoje, de uma novela,
um conto e um poema. Têm, nesse sentido, também uma função política.
*Maria Esther Maciel é escritora e
professora de literatura da UFMG. Publicou, entre outros, “O livro dos nomes”
(Companhia das Letras) e “As ironias da ordem” (Ed. UFMG)
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
resenha, "jogo de varetas" [DC]
Diário Catarinense, 24 de novembro de 2012
Alguns objetos dentro de uma sacola de plástico amarela
por Sérgio Medeiros
Alguns objetos dentro de uma sacola de plástico amarela
por Sérgio Medeiros
Há tempos eu não lia um livro tão interessante quanto “Jogo de Varetas” (7 Letras, RJ), do prosador Manoel Ricardo de Lima, lançado recentemente. Escrevo “prosador” de propósito, pois me parece que esse termo é mais justo do que o termo contista, que também caberia ao autor. O prosador faz experiências com a linguagem, ultrapassando certas categorias como conto, poema etc. O prosador não está limitado ao conto, faz prosas, mas não aspira necessariamente a fazer romance.
Dos “beckettianos” brasileiros que eu conheço, Manoel Ricardo,
como gosto de chamá-lo (o nome duplo ecoa o fato de que, junto com o livro
novo, ele também relança outro trabalho importante, “As mãos”, pela mesma
editora carioca), é seguramente o autor mais bem-sucedido, entre os escritores da
sua geração (quarenta anos de idade). Não imita a linguagem do mestre irlandês,
nem se limita a recriar, em português, aquela atmosfera inerte e esquálida que
geralmente associamos ao autor de “O inominável” e de “Fim de partida”. Manoel
Ricardo tem um universo próprio, brasileiro e (muitas vezes) nordestino, e, no
entanto, todo o tempo dialoga com Beckett, apostando, porém, muito mais na invenção
e exploração de um vocabulário e de uma sintaxe pessoais. Ou seja, não encontro
cacoetes beckettianos em Manoel Ricardo. Por isso pode-se afirmar que esse
autor atingiu o auge da sua forma. É um prosador maduro que forjou seu próprio dialeto,
algo dificílimo de realizar na literatura contemporânea.
Logo que comecei a ler “Jogo de Varetas” e me deparei com uma
infinidade de personagens solitários e decrépitos, a se deslocar por um mundo
inóspito ou, na melhor das hipóteses, desconfortável, quando não violento (a
metáfora da “guerra” percorre esses relatos, que tratam de batalhas mentais e
físicas), pensei não apenas em Beckett, mas também no poeta norte-americano
William Carlos Williams. O recorte preciso (e aparentemente espontâneo) da cena
cotidiana, que encontramos nos poemas desse mestre da objetividade, reaparece
nas cenas sensíveis e dolorosas de Manoel Ricardo, talvez com muito mais
dramaticidade. Afinal, um dos personagens de “Jogo de Varetas” declara,
resumindo a inquietação de todos os outros: “Não sei direito pra onde vou.
Tenho a impressão que vou morrer a qualquer hora.” E, na sequência, volta a
mexer na sua caixa de Pandora: “Volto a pensar nos objetos dentro as sacola de
plástico amarelo, todos muito coloridos. Vermelho com verde, outro azul, outro
com listras verticais.”
Os personagens de Beckett se aferram, como se sabe, a tais objetos
ínfimos e, no caso de “Jogo de Varetas”, também misteriosos. Mas me parece que William
Carlos Williams, no seu famoso poema “To a Poor Old Woman”, “A uma pobre
velha”, em tradução livre, é quem descreveu de modo magistral o universo no
qual, neste novo trabalho, Manoel Ricardo imerge com convicção, sem jamais
ceder ao vulgar e ao suburbano que encontramos em autores brasileiros modernos
e contemporâneos, que também falaram de seres decrépitos, mas sem tanta delicadeza
poética. O poema a que fiz referência diz mais ou menos o seguinte (a tradução
é minha): a pobre senhora “morde uma ameixa na rua, um saco de papel cheio
delas na mão. Agradam-lhe muito. Agradam-lhe muito. Agradam-lhe.” Então,
conclui o poema: “Uma alegria de ameixas maduras parece invadir o ar.”
Na prosa de Manoel Ricardo, porém, falta essa alegria. O “saco de
ameixas” existe, mas o prazer de mordê-las não. Falta em “Jogo de Varetas” o
raro e inegável momento de degustação ou de deleite pleno, como no poema
citado. Assim, lemos num dos textos do livro em questão: “Meto a mão na bolsa
que trouxe a tiracolo, procuro um pacote antigo feito com papel marrom,
enrolado com barbante, frouxo: um maço de fotografias coloridas. Tenho medo de
perder a mão dentro da bolsa.” Ou seja, o instante de regozijo, que existe em
William Carlos Williamns, parece aqui se transformar num momento de receio ou
pânico. A prosa de Manoel Ricardo, com sua típica dramaticidade, começa a
dialogar com Beckett, afastando-se dos versos do poeta. Talvez Beckett tenha
mais humor do que o jovem autor brasileiro. Manoel Ricardo não se distingue, de
fato, pelo humor, sua prosa, que descreve uma “paisagem frágil, desaparecida,
seca”, não permite que os personagens tenham o sossego que desejam, a trégua
que imploram.
Num relato típico, o personagem imobilizado ou prisioneiro diz:
“Tenho um muro pleno, feito por ciclopes.” O que o personagem vê não são certamente
as ameixas saborosas de William Carlos Williams, mas o mundo de hoje, um mundo
quase insuportável e intragável. O personagem vê o terrível olho do ciclope,
que o devassa e que é ao mesmo tempo a sua própria consciência, o seu próprio
monólogo infinito. Também o monólogo, e quase apenas ele, povoa os textos de Beckett,
onde a voz anônima substitui a subjetividade dos romances de antigamente (e
ainda dos romances de hoje).
Professor de Literatura Brasileira na Unirio, Rio de Janeiro e
ex-aluno da UFSC, onde defendeu tese de doutorado há poucos anos, Manoel
Ricardo de Lima, com esse novo livro, se afirma como um dos mais instigantes e
sólidos escritores do país.
*Sérgio Medeiros é ensaísta, tradutor e poeta. Publicou, entre
outros, o livro de poesia “Totens” e, em colaboração com Dirce Waltrick do Amarante, “Cartas a Nora”, de James Joyce.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
livro novo, Arquivo Debilitado
Arquivo Debilitado - o gesto de Evandro Affonso Ferreira
de Júlia Studart
Dobra Editorial, SP, 2012 - http://www.portaleditora.com.br
Texto de apresentação
Este livro de
Júlia Studart, uma das mais talentosas e sensíveis ensaístas que li
ultimamente, discorre sobre literatura e arte, enfocando aquilo que,
nessas duas práticas artísticas, se está fazendo de melhor hoje no Brasil. De
melhor e mais instigante.
A
escrita contemporânea se dá a ver por intermédio das narrativas de
Evandro Affonso Ferreira. As personagens desse escritor não são definidas aqui
apenas conceitualmente, mas, sobretudo, por meio de imagens de impacto,
que provêm do universo das artes plásticas. Assim, um protagonista que é
"um resto humano" pode ser caracterizado como um "vidrinho com
cuspe", numa alusão explícita a uma instalação de Marcelo
Coutinho. E Júlia prossegue, esclarecendo que essa
instalação expõe o "recheio de um vazio", e completa –
um vazio pleno.
Essa
ideia de que a existência "literária" é constituída de um vazio
pleno ecoa nas teorias de Blanchot, Deleuze, Agamben, para mencionar apenas
três dos pensadores citados com muita propriedade por Júlia
neste livro de invejável consistência teórica. Mas, novamente, a imagem (abjeta
ou poética) é o que melhor define o personagem e revela ao mesmo
tempo o alcance sugestivo da escrita dessa jovem ensaísta, que
não se vale apenas de conceitos, ainda que não se furte a eles, pois em sua
origem este livro foi uma dissertação de mestrado, uma bela dissertação, aliás.
Assim, ao buscar circunscrever certo personagem "infame", Júlia menciona
um garrafão sujo, obra da artista Elida Tessler, "um garrafão
aberto à procura de ar e quase sufocado pela poeira". São esses
símiles ousados – os símiles aproximam a narrativa contemporânea às instalações mais
criativas de hoje – que dão o tom deste livro, em que o signo e o vazio, o
humano e o não-humano, a literatura e as artes plásticas lançam um segredo
comum, segredo que é uma ampliação da experiência estética, não uma resposta ou
uma revelação pretensamente filosófica.
por Sérgio
Medeiros. Ensaísta, tradutor e poeta.
Publicou, entre outros, o livro TOTENS [Editora Iluminuras, 2012]
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
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