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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
revista sibila,
. 24 de setembro de 2012 .
Resenha,
Dois livros de Manoel Ricardo de Lima
por Davi Pessoa
Ler:
http://sibila.com.br/novos-e-criticos/dois-livros-de-manoel-ricardo-de-lima/7447
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
domingo, 9 de setembro de 2012
elsa morante,
Diário 1938
Roma, 5 de fevereiro de 1938
Sonhos de humilhação, de humilhação.
Numa dessas noites,
sonhei com a praça Monte de Piedade (daqui a pouco, ainda nesta manhã, terei
que colocar novamente a minha máquina de escrever para trabalhar). Quartos
grandes com piso em forma de losangos largos, empoeirado, opaco. No fundo de um
enorme quarto, três ou quatro portas. Mas no sonho, eu pego a minha máquina de
escrever. A jovenzinha diz que ela está no nome de G. M. (isso está associado à
lembrança de muitos dias de miséria). Eu o nomeio, mas temo comprometê-lo. Sei
que à procura do Monte eu caminhei com a minha máquina pela Rua XX de Setembro.
Cancelas, igrejas, pelos lados. Entro numa casa atulhada, com sofá coberto por
falsos damascos, uma mulher que costura com sua máquina. Grito-lhe alguma
coisa. Desço novamente a escada estreita.
Sempre sonho que voltei a dar as minhas
aulas interrompidas, a ruína é imediata.
Ontem sonhei com Odradek: (conto de
Kafka). Estava numa sala com estantes de madeiras, eram baixas (tem a ver com a
minha casa de infância, com o sonho do peixe). Liana F. aparece, dão um lugar
para ela numa mansarda, ou seja, sobre um plano das estantes (ela
vem a Paris). Mas Liana F. é Odradek, um ser pequeno, assim como um novelo, e,
diferentemente dele, é de carne escamosa, humilhada, sem forma. Sinto a
sensação dolorosa que pode provocar um tumor, uma crosta, também porque o meu
irmão a joga no chão com violência. “Ah!” grito, gemendo, e sempre fico com
receio de que a tenha matado, mas vejo que ela ainda se arrasta, viva. (Ligação
tríplice: no dia anterior tinha visto que a Minotaure publicou Odradek com
pequenas figuras de um Odradek semelhante a um homem ou a um inseto – alguns
dias atrás li um conto sobre Paris de Liana F. – Meu irmão conhece Liana F.).
Nesta noite, mais uma vez, o sonho de
minha irmã de quinze anos, e ainda as escadas do meu prédio. Hospedei a minha
irmã por uma noite, talvez de má vontade? De manhã, olho a parede ao lado de
sua cama: – O que são – pergunto – aqueles pregos enormes? – Na realidade, não
se vê nada, mas, ao mesmo tempo, eu sei que existem. Logo a minha
irmã se ofende, humilha-se. Na realidade, essa adolescente passou a ter uma timidez
esquiva, grosseira, com aquele pudor atormentado e um pouco enfurecido da
própria carne e existência que, talvez, os filhos têm por causa da presença e
por causa dos hábitos de minha mãe. Assim, minha irmã foi embora. A meu ver,
está seminua, desce as escadas devagar, com um lamento demorado, os olhos
cheios de desalento e de acusação, um estranho sorriso trágico e imóvel nos
lábios, e, no mais, caminha com um andar solene de uma dama. “Que garota
teatral!”, penso. De fato, parece que se sente no patamar, vejo-a enquanto
desce a escada, e as pessoas sussurram pelas portas. O seu lamento é muito
forte, quase um grito. Desce agora como se caísse de um precipício, sem olhar
para os lados, alucinada. “Não há do que sentir vergonha, – penso – é minha
irmã, mas não mora comigo. Nunca mais a receberei”. E penso, ao mesmo tempo:
Teria que chamá-la de novo. Por que não o faço? Está quase chegando ao portão
-. Vejo rapidamente a rua, e, então, a chamo: – Maria! Maria! – Ela volta com
pressa, subindo novamente as escadas, com os olhos lúcidos e com um ar sempre
teatral, tragicamente resignada, e com aquele sorriso contínuo. Sobe, sem
parar. – Eu não queria ofendê-la, de verdade, – digo para minha mãe. – Não irei
acusá-la. Apenas observava, olhe, ali na parede, aqueles pregos enormes -.
Acredito que a minha mãe me dê razão.
Algumas coisas em que Freud encontraria
certos símbolos sexuais. Mas, sobretudo, humilhação, culpas vagas, pudor
ferido. Então, o quê?
Elsa Morante, Diario 1938. Torino:
Einaudi, 1989, p. 31-33, trad. Davi Pessoa.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
o melhor dos amigos,
Lorenzo tem 4 anos. Muitas vezes desenha dinossauros.
Às vezes desenha a Júlia numa cartolina que mantém
sempre na parede do quarto e diz que a ama. Agora,
inventou de me desenhar e me mandar de presente pelo
correio. É afilhado, e é certeiro o melhor dos amigos.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
lançamento, 29.08
jogo de varetas,
“‘Eu não sei muita coisa’, disse olhando preto e
redondo para mim. ‘Mas posso contar uma história’, continuou disfarçando a voz.”
As frases iniciais da primeira narrativa de Jogo
de varetas sintetizam, de maneira exemplar, aquela que talvez seja a
questão fundamental deste novo livro de Manoel Ricardo de Lima. Seus
personagens estão ou se sentem deslocados, como se ainda não tivessem se
encontrado ou encontrado seu lugar no mundo. Por vezes, parecem não saber nem
mesmo quem são; o próprio nome lhes foge: “O meu nome eu não sei, ao menos não consigo lembrar agora”,
afirma o narrador de “Sertão”. Essa situação, em alguns casos, está associada a
uma lesão ou a uma deficiência. E é precisamente aí, quando o corpo falha,
quando o corpo falta, que o tato – o contato – se faz mais importante. Até
porque não há corpo que não seja, em si, antes de tudo, falta; a possível
completude de um corpo parece estar sempre em outro corpo, em outros corpos. “Nossa
vontade é permanecer perto uns dos outros, todos, assim mais ou menos uns
quinze que somos, abraçados, mesmo que mutilados, mas intactos”, lê-se em “Isto
é uma imagem”.
Contar
uma história, a tarefa a que os
personagens de Manoel Ricardo de Lima se agarram, é forjar uma possibilidade de
vida. A narração proporciona, em certa medida, uma reinvenção de si, a partir
da transformação do eu num outro – e do impossível em novamente possível. Quem
se põe a contar sua própria história chega sempre a um ponto em que já não
conta a própria história. A história
e ele mesmo já são outros. Daí que a incapacidade de produzir narrativas seja
percebida como um fardo: “Queria ter histórias”, lamenta o personagem de “Os
comedores de pão”, “mas não tenho histórias, o que é um problema para mim”. Num
dos textos mais fascinantes do livro, “Tabelionato”, um homem encera tábuas ao
mesmo tempo em que escreve nelas. O seu gesto é mecânico; a sua vida se reduzira
à repetição infinita desse gesto: ele se convertera numa verdadeira máquina de
escrever. No entanto, se o único gesto que lhe resta é o de escrever, há
esperança: como frisa o narrador, “escrever ainda é humano”. E escrever só é
humano na medida em que esta atividade coincide com a possibilidade de
libertação: “Ele não se move, apenas escreve, isto é subversivo”. Ao facultar a
transformação do eu num outro e, por consequência, a experimentação de novas possibilidades
de vida, os atos de escrever e de contar uma história aparecem como atos
eminentemente políticos. Talvez por isso o livro se abra não com um prefácio,
mas com uma “ameaça”, assinada pelo próprio autor. Nenhuma subversão maior que
tornar a vida, de novo, possível.
por veronica stigger
as mãos,
{outro livro
Uma primeira edição deste livro foi
impressa pela editora 7Letras em julho de 2003. Recortei trechos e enviei a
alguns amigos, pedi que gravassem a leitura em fitas cassete e me enviassem.
Nos lançamentos provocava uma audição das fitas e apresentava cada um dos
amigos e seus trabalhos. Montava o texto numa outra série de composição redesenhando
a sintaxe com outras vozes. Havia também um manuseio na troca das fitas, seu
rápido envelhecimento e a dificuldade de onde conseguir tocá-las. Tudo isso, me
parece, tem a ver com o desenho impreciso desse pequeno livro: um limite entre
o poema e a narrativa numa espécie de experiência móvel e desamparada, um limite
artificial, que seja, em torno de uma guerra, de uma cidade e de uma história
de amor. Feito numa edição pequena, o livro praticamente desapareceu.
Depois, a artista visual Elida Tessler
montou um trabalho muito bonito a partir de uma frase do livro. Há um exemplar
único, recortado e transformado em álbum de retratos, que pertence a Sofia
Sabóia Lima. O DJ Guga de Castro armou um uso das fitas, transformou em
arquivos de computador; assim as leituras ainda existem. O artista visual Antonio
Sérgio Bessa, que também é escritor e vive fora do Brasil há muitos anos,
tradutor dos poetas concretos brasileiros, de Waly Salomão, Francisco Alvim e
Torquato Neto etc, traduziu o livro para o inglês e me disse: “O que me
interessou no seu trabalho desde o início foi certa pulverização sintática do
texto, o que me deu um senso de liberdade muito grande, uma permissão de reinventá-lo
em outra língua”. Francisco dos Santos, da Lumme Editor, em 2006, aceitou publicar
o jogo. E fizemos uma segunda edição menor ainda: 120 exemplares, dois cadernos
dentro de uma caixa, bilíngue, mas sem nenhuma ideia de permanência. Boa parte
da edição foi enviada para o Sérgio Bessa, em NY, onde vive.
Agora,
quando o Jorge Viveiros propôs editar o meu Jogo de Varetas, sugeriu também reeditar este As Mãos, publicar os dois ao mesmo tempo. Convidei a Rachel Caiano,
artista portuguesa que tem um traço encantado, para fazer algo com as capas que
embaralhasse esses livros tão distantes no tempo. Agradeço muito a todos esses
amigos, desde o começo, que fazem deste livro sempre ‘outra coisa’. Por
isso é praticamente uma obrigação continuar o móbile: retirei e refiz trechos, aproximei
o texto aos do Jogo de Varetas, é
outro livro. Mas continua a ser, para mim, uma guerra e um corte abrupto. Para Euré,
no céu.
manoel ricardo de lima
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
seis anos do primeiro livro,
Wittgenstein e Will Eisner -
se numa cidade suas formas de vida
16x13cm (HQ / encarte) Este primeiro livro da Coleção Móbile, Lumme Editor, de Júlia Studart, publicado em 2006, traça uma linha tensa entre as novelas gráficas de Will Eisner e o movimento com a linguagem proposto por Ludwig Wittgenstein. |
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