domingo, 9 de setembro de 2012

elsa morante,
















Diário 1938
Roma, 5 de fevereiro de 1938

Sonhos de humilhação, de humilhação.

        Numa dessas noites, sonhei com a praça Monte de Piedade (daqui a pouco, ainda nesta manhã, terei que colocar novamente a minha máquina de escrever para trabalhar). Quartos grandes com piso em forma de losangos largos, empoeirado, opaco. No fundo de um enorme quarto, três ou quatro portas. Mas no sonho, eu pego a minha máquina de escrever. A jovenzinha diz que ela está no nome de G. M. (isso está associado à lembrança de muitos dias de miséria). Eu o nomeio, mas temo comprometê-lo. Sei que à procura do Monte eu caminhei com a minha máquina pela Rua XX de Setembro. Cancelas, igrejas, pelos lados. Entro numa casa atulhada, com sofá coberto por falsos damascos, uma mulher que costura com sua máquina. Grito-lhe alguma coisa. Desço novamente a escada estreita.

Sempre sonho que voltei a dar as minhas aulas interrompidas, a ruína é imediata.

Ontem sonhei com Odradek: (conto de Kafka). Estava numa sala com estantes de madeiras, eram baixas (tem a ver com a minha casa de infância, com o sonho do peixe). Liana F. aparece, dão um lugar para ela numa mansarda, ou seja, sobre um plano das estantes (ela vem a Paris). Mas Liana F. é Odradek, um ser pequeno, assim como um novelo, e, diferentemente dele, é de carne escamosa, humilhada, sem forma. Sinto a sensação dolorosa que pode provocar um tumor, uma crosta, também porque o meu irmão a joga no chão com violência. “Ah!” grito, gemendo, e sempre fico com receio de que a tenha matado, mas vejo que ela ainda se arrasta, viva. (Ligação tríplice: no dia anterior tinha visto que a Minotaure publicou Odradek com pequenas figuras de um Odradek semelhante a um homem ou a um inseto – alguns dias atrás li um conto sobre Paris de Liana F. – Meu irmão conhece Liana F.).

Nesta noite, mais uma vez, o sonho de minha irmã de quinze anos, e ainda as escadas do meu prédio. Hospedei a minha irmã por uma noite, talvez de má vontade? De manhã, olho a parede ao lado de sua cama: – O que são – pergunto – aqueles pregos enormes? – Na realidade, não se vê nada, mas, ao mesmo tempo, eu sei que existem. Logo a minha irmã se ofende, humilha-se. Na realidade, essa adolescente passou a ter uma timidez esquiva, grosseira, com aquele pudor atormentado e um pouco enfurecido da própria carne e existência que, talvez, os filhos têm por causa da presença e por causa dos hábitos de minha mãe. Assim, minha irmã foi embora. A meu ver, está seminua, desce as escadas devagar, com um lamento demorado, os olhos cheios de desalento e de acusação, um estranho sorriso trágico e imóvel nos lábios, e, no mais, caminha com um andar solene de uma dama. “Que garota teatral!”, penso. De fato, parece que se sente no patamar, vejo-a enquanto desce a escada, e as pessoas sussurram pelas portas. O seu lamento é muito forte, quase um grito. Desce agora como se caísse de um precipício, sem olhar para os lados, alucinada. “Não há do que sentir vergonha, – penso – é minha irmã, mas não mora comigo. Nunca mais a receberei”. E penso, ao mesmo tempo: Teria que chamá-la de novo. Por que não o faço? Está quase chegando ao portão -. Vejo rapidamente a rua, e, então, a chamo: – Maria! Maria! – Ela volta com pressa, subindo novamente as escadas, com os olhos lúcidos e com um ar sempre teatral, tragicamente resignada, e com aquele sorriso contínuo. Sobe, sem parar. – Eu não queria ofendê-la, de verdade, – digo para minha mãe. – Não irei acusá-la. Apenas observava, olhe, ali na parede, aqueles pregos enormes -. Acredito que a minha mãe me dê razão.

Algumas coisas em que Freud encontraria certos símbolos sexuais. Mas, sobretudo, humilhação, culpas vagas, pudor ferido. Então, o quê?


Elsa Morante, Diario 1938. Torino: Einaudi, 1989, p. 31-33, trad. Davi Pessoa.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

o melhor dos amigos,




Lorenzo tem 4 anos. Muitas vezes desenha dinossauros. 
Às vezes desenha a Júlia numa cartolina que mantém 
sempre na parede do quarto e diz que a ama. Agora, 
inventou de me desenhar e me mandar de presente pelo 
correio. É afilhado, e é certeiro o melhor dos amigos. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

lançamento, 29.08



jogo de varetas,

“‘Eu não sei muita coisa’, disse olhando preto e redondo para mim. ‘Mas posso contar uma história’, continuou disfarçando a voz.” As frases iniciais da primeira narrativa de Jogo de varetas sintetizam, de maneira exemplar, aquela que talvez seja a questão fundamental deste novo livro de Manoel Ricardo de Lima. Seus personagens estão ou se sentem deslocados, como se ainda não tivessem se encontrado ou encontrado seu lugar no mundo. Por vezes, parecem não saber nem mesmo quem são; o próprio nome lhes foge: “O meu nome eu não sei, ao menos não consigo lembrar agora”, afirma o narrador de “Sertão”. Essa situação, em alguns casos, está associada a uma lesão ou a uma deficiência. E é precisamente aí, quando o corpo falha, quando o corpo falta, que o tato – o contato – se faz mais importante. Até porque não há corpo que não seja, em si, antes de tudo, falta; a possível completude de um corpo parece estar sempre em outro corpo, em outros corpos. “Nossa vontade é permanecer perto uns dos outros, todos, assim mais ou menos uns quinze que somos, abraçados, mesmo que mutilados, mas intactos”, lê-se em “Isto é uma imagem”.
Contar uma história, a tarefa a que os personagens de Manoel Ricardo de Lima se agarram, é forjar uma possibilidade de vida. A narração proporciona, em certa medida, uma reinvenção de si, a partir da transformação do eu num outro – e do impossível em novamente possível. Quem se põe a contar sua própria história chega sempre a um ponto em que já não conta a própria história. A história e ele mesmo já são outros. Daí que a incapacidade de produzir narrativas seja percebida como um fardo: “Queria ter histórias”, lamenta o personagem de “Os comedores de pão”, “mas não tenho histórias, o que é um problema para mim”. Num dos textos mais fascinantes do livro, “Tabelionato”, um homem encera tábuas ao mesmo tempo em que escreve nelas. O seu gesto é mecânico; a sua vida se reduzira à repetição infinita desse gesto: ele se convertera numa verdadeira máquina de escrever. No entanto, se o único gesto que lhe resta é o de escrever, há esperança: como frisa o narrador, “escrever ainda é humano”. E escrever só é humano na medida em que esta atividade coincide com a possibilidade de libertação: “Ele não se move, apenas escreve, isto é subversivo”. Ao facultar a transformação do eu num outro e, por consequência, a experimentação de novas possibilidades de vida, os atos de escrever e de contar uma história aparecem como atos eminentemente políticos. Talvez por isso o livro se abra não com um prefácio, mas com uma “ameaça”, assinada pelo próprio autor. Nenhuma subversão maior que tornar a vida, de novo, possível.

 por veronica stigger

as mãos,
{outro livro

Uma primeira edição deste livro foi impressa pela editora 7Letras em julho de 2003. Recortei trechos e enviei a alguns amigos, pedi que gravassem a leitura em fitas cassete e me enviassem. Nos lançamentos provocava uma audição das fitas e apresentava cada um dos amigos e seus trabalhos. Montava o texto numa outra série de composição redesenhando a sintaxe com outras vozes. Havia também um manuseio na troca das fitas, seu rápido envelhecimento e a dificuldade de onde conseguir tocá-las. Tudo isso, me parece, tem a ver com o desenho impreciso desse pequeno livro: um limite entre o poema e a narrativa numa espécie de experiência móvel e desamparada, um limite artificial, que seja, em torno de uma guerra, de uma cidade e de uma história de amor. Feito numa edição pequena, o livro praticamente desapareceu.
Depois, a artista visual Elida Tessler montou um trabalho muito bonito a partir de uma frase do livro. Há um exemplar único, recortado e transformado em álbum de retratos, que pertence a Sofia Sabóia Lima. O DJ Guga de Castro armou um uso das fitas, transformou em arquivos de computador; assim as leituras ainda existem. O artista visual Antonio Sérgio Bessa, que também é escritor e vive fora do Brasil há muitos anos, tradutor dos poetas concretos brasileiros, de Waly Salomão, Francisco Alvim e Torquato Neto etc, traduziu o livro para o inglês e me disse: “O que me interessou no seu trabalho desde o início foi certa pulverização sintática do texto, o que me deu um senso de liberdade muito grande, uma permissão de reinventá-lo em outra língua”. Francisco dos Santos, da Lumme Editor, em 2006, aceitou publicar o jogo. E fizemos uma segunda edição menor ainda: 120 exemplares, dois cadernos dentro de uma caixa, bilíngue, mas sem nenhuma ideia de permanência. Boa parte da edição foi enviada para o Sérgio Bessa, em NY, onde vive.
 Agora, quando o Jorge Viveiros propôs editar o meu Jogo de Varetas, sugeriu também reeditar este As Mãos, publicar os dois ao mesmo tempo. Convidei a Rachel Caiano, artista portuguesa que tem um traço encantado, para fazer algo com as capas que embaralhasse esses livros tão distantes no tempo. Agradeço muito a todos esses amigos, desde o começo, que fazem deste livro sempre ‘outra coisa’. Por isso é praticamente uma obrigação continuar o móbile: retirei e refiz trechos, aproximei o texto aos do Jogo de Varetas, é outro livro. Mas continua a ser, para mim, uma guerra e um corte abrupto. Para Euré, no céu.

manoel ricardo de lima

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

seis anos do primeiro livro,

Wittgenstein e Will Eisner
se numa cidade suas formas de vida
16x13cm (HQ / encarte)

 
Este primeiro livro da Coleção Móbile, Lumme 
Editor, de Júlia Studart, publicado em 2006, traça 
uma linha tensa entre as novelas gráficas de Will 
Eisner e o  movimento com a linguagem proposto 
por Ludwig Wittgenstein.