quarta-feira, 22 de agosto de 2012

lançamento, 29.08



jogo de varetas,

“‘Eu não sei muita coisa’, disse olhando preto e redondo para mim. ‘Mas posso contar uma história’, continuou disfarçando a voz.” As frases iniciais da primeira narrativa de Jogo de varetas sintetizam, de maneira exemplar, aquela que talvez seja a questão fundamental deste novo livro de Manoel Ricardo de Lima. Seus personagens estão ou se sentem deslocados, como se ainda não tivessem se encontrado ou encontrado seu lugar no mundo. Por vezes, parecem não saber nem mesmo quem são; o próprio nome lhes foge: “O meu nome eu não sei, ao menos não consigo lembrar agora”, afirma o narrador de “Sertão”. Essa situação, em alguns casos, está associada a uma lesão ou a uma deficiência. E é precisamente aí, quando o corpo falha, quando o corpo falta, que o tato – o contato – se faz mais importante. Até porque não há corpo que não seja, em si, antes de tudo, falta; a possível completude de um corpo parece estar sempre em outro corpo, em outros corpos. “Nossa vontade é permanecer perto uns dos outros, todos, assim mais ou menos uns quinze que somos, abraçados, mesmo que mutilados, mas intactos”, lê-se em “Isto é uma imagem”.
Contar uma história, a tarefa a que os personagens de Manoel Ricardo de Lima se agarram, é forjar uma possibilidade de vida. A narração proporciona, em certa medida, uma reinvenção de si, a partir da transformação do eu num outro – e do impossível em novamente possível. Quem se põe a contar sua própria história chega sempre a um ponto em que já não conta a própria história. A história e ele mesmo já são outros. Daí que a incapacidade de produzir narrativas seja percebida como um fardo: “Queria ter histórias”, lamenta o personagem de “Os comedores de pão”, “mas não tenho histórias, o que é um problema para mim”. Num dos textos mais fascinantes do livro, “Tabelionato”, um homem encera tábuas ao mesmo tempo em que escreve nelas. O seu gesto é mecânico; a sua vida se reduzira à repetição infinita desse gesto: ele se convertera numa verdadeira máquina de escrever. No entanto, se o único gesto que lhe resta é o de escrever, há esperança: como frisa o narrador, “escrever ainda é humano”. E escrever só é humano na medida em que esta atividade coincide com a possibilidade de libertação: “Ele não se move, apenas escreve, isto é subversivo”. Ao facultar a transformação do eu num outro e, por consequência, a experimentação de novas possibilidades de vida, os atos de escrever e de contar uma história aparecem como atos eminentemente políticos. Talvez por isso o livro se abra não com um prefácio, mas com uma “ameaça”, assinada pelo próprio autor. Nenhuma subversão maior que tornar a vida, de novo, possível.

 por veronica stigger

as mãos,
{outro livro

Uma primeira edição deste livro foi impressa pela editora 7Letras em julho de 2003. Recortei trechos e enviei a alguns amigos, pedi que gravassem a leitura em fitas cassete e me enviassem. Nos lançamentos provocava uma audição das fitas e apresentava cada um dos amigos e seus trabalhos. Montava o texto numa outra série de composição redesenhando a sintaxe com outras vozes. Havia também um manuseio na troca das fitas, seu rápido envelhecimento e a dificuldade de onde conseguir tocá-las. Tudo isso, me parece, tem a ver com o desenho impreciso desse pequeno livro: um limite entre o poema e a narrativa numa espécie de experiência móvel e desamparada, um limite artificial, que seja, em torno de uma guerra, de uma cidade e de uma história de amor. Feito numa edição pequena, o livro praticamente desapareceu.
Depois, a artista visual Elida Tessler montou um trabalho muito bonito a partir de uma frase do livro. Há um exemplar único, recortado e transformado em álbum de retratos, que pertence a Sofia Sabóia Lima. O DJ Guga de Castro armou um uso das fitas, transformou em arquivos de computador; assim as leituras ainda existem. O artista visual Antonio Sérgio Bessa, que também é escritor e vive fora do Brasil há muitos anos, tradutor dos poetas concretos brasileiros, de Waly Salomão, Francisco Alvim e Torquato Neto etc, traduziu o livro para o inglês e me disse: “O que me interessou no seu trabalho desde o início foi certa pulverização sintática do texto, o que me deu um senso de liberdade muito grande, uma permissão de reinventá-lo em outra língua”. Francisco dos Santos, da Lumme Editor, em 2006, aceitou publicar o jogo. E fizemos uma segunda edição menor ainda: 120 exemplares, dois cadernos dentro de uma caixa, bilíngue, mas sem nenhuma ideia de permanência. Boa parte da edição foi enviada para o Sérgio Bessa, em NY, onde vive.
 Agora, quando o Jorge Viveiros propôs editar o meu Jogo de Varetas, sugeriu também reeditar este As Mãos, publicar os dois ao mesmo tempo. Convidei a Rachel Caiano, artista portuguesa que tem um traço encantado, para fazer algo com as capas que embaralhasse esses livros tão distantes no tempo. Agradeço muito a todos esses amigos, desde o começo, que fazem deste livro sempre ‘outra coisa’. Por isso é praticamente uma obrigação continuar o móbile: retirei e refiz trechos, aproximei o texto aos do Jogo de Varetas, é outro livro. Mas continua a ser, para mim, uma guerra e um corte abrupto. Para Euré, no céu.

manoel ricardo de lima

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

seis anos do primeiro livro,

Wittgenstein e Will Eisner
se numa cidade suas formas de vida
16x13cm (HQ / encarte)

 
Este primeiro livro da Coleção Móbile, Lumme 
Editor, de Júlia Studart, publicado em 2006, traça 
uma linha tensa entre as novelas gráficas de Will 
Eisner e o  movimento com a linguagem proposto 
por Ludwig Wittgenstein. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Søren Aabye Kierkegaard,



Aconteceu num teatro haver fogo nos bastidores. O palhaço 
apareceu para informar disso o público. As pessoas pensaram 
que era uma piada e aplaudiram. Ele repetiu. As pessoas 
jubilaram ainda mais.
       
em Diapsalmata

terça-feira, 17 de julho de 2012

dança no andar de cima,


Dança no andar de cima é um espaço de produção, criação e investigação em arte contemporânea, localizado em Fortaleza, no Ceará. O encontro, Uma conversa: poesia, aconteceu no dia 23 de junho de 2012, às 18:00, com leituras de poemas e conversa com Carlos Augusto Lima, Júlia Studart, Leonardo Gandolfi e Manoel Ricardo de Lima. As fotografias são da querida Denise Mustafa. 


de uma conversa amena com júlia lopes: eu só te aguardo, não te espero mais. ao tempo em que rio quando esquecer os óculos e promessas e felicitações de aniversário; mas não me olha, pois promete trazer lembranças do free shop para a menina um dia. ali, os campeões anônimos do futevôlei em vibração e torcida. esqueço a última fala, remexo os bolsos. se tocam como se tocariam homens rudes e troncos rijos. desfiei o frango do almoço para compor o jantar: digo. ela: não sei bem o que esperar da vida. eu: você pode combinar com queijo e presunto e pão. e diz: estou preocupada, avancei o sinal em hora suspeita, ele irá dizer de mim qualquer e vou chorar. eu: tento um consolo, mas me assusto com o voo rasante do helicóptero sem luzes, sem sinalização. que imprudente magnata pilotaria tão alta noite e breu, tão preciso na hora do abraço? penso. ela: eu queria ter coragem de dizer. eu: torço para que você apenas diga. ela: ouço, agora, trovões fora de época, do tempo. depois de chorar horrores, de sofrer a encalhar o corpo, escreveremos um livro paradidático a ser adotado nas melhores escolas sobre o sentido oculto de cada parágrafo desse infortúnio e conturbado enredo chamado amor. 
[Carlos Augusto Lima] 


p.s. infelizmente as linhas do poema não puderam ser mantidas por causa do espaço limitado do blog. 



viêt-công
ele quer saber: são
capazes de guardar
segredo? ele
quer saber se o
segredo pode
curar, provocar uma
revira-volta, trazê-lo
pra mais perto. fala
um, dois dialetos
que ninguém entende
e conserva o hábito
de alimentar
patos pela manhã. às
vezes é flagrado
tecendo cálculos
de alegria
num pedaço de
terra no brasil, duas
cervejas por dia, chá
com gengibre e
mel de rosmaninho


os amigos foram
morar no
marrocos. ele
também não
parece francés e
nunca sabe
muito bem, não
faz idéia do que
veio fazer aqui no
meio de tanta
gente. ele também
não diz, mas o
segredo, como todo
o resto, pode ser
apenas invenção. ele
também não diz
se fez um amigo
ou se morre um
pouco a cada dia
mais rápido que
todos nós

[Júlia Studart]



Tiquetaque

Hoje o drama interno de Gancho
atingiu novo estágio e ele precisou ser
implacável com Wendy Darling,
por que ela insiste em se tornar vítima
para despertar atenção e pena dos outros?

Gancho então pensa um pouquinho mais,
as lembranças se apagam e no lugar delas
outra coisa fica, i.e., ao pôr os pingos nos is,
vê que está exagerando, vê que o distrai
a contemplação de seus próprios dias
e que o diverte o desenrolar da vida dos outros.

Sempre me distraio com a contemplação
dos meus próprios dias, diz o capitão,
sempre me divirto com o desenrolar
da vida dos outros, completa ele.

[Leonardo Gandolfi]


Sertão
          Estou há algumas horas na frente desse campo aberto, um terreno roto, contra meus próprios ossos. Algumas horas, pode ser, é o que penso, mas posso estar aqui há vários dias e, assim, estar aqui há semanas, ou há meses. Mas não sei, tanto tempo assim já teria morrido, ou de frio ou de fome ou à bala. Aliás, estou com muita fome. Mas talvez tenha parado aqui apenas por alguns minutos e o tempo não passa disso. Mas não sei. Apare melhor a sua cabeça, isso. Daqui de onde estou o que vejo é um campo horizontal que se estende até aonde minha vista consegue esbarrar e, bem ali, adiante, até aquelas primeiras montanhas, tudo continua desmoronando. O terreno me parece muito inseguro, existem uns barrancos de areia esparramados, algumas linhas de madeira, de ferro, de tecido podre e, acho, algum resto de explosivos.
          Não há mais grama, e sinto frio.
          Sobra a areia vermelha e estas moscas ao redor de tudo por aqui. 
        Tenho um papel em um dos meus bolsos do casaco, pode ser também uma faca, uma ausência. Acho que o mês em que estamos é novembro, o ano talvez seja 1995, e não sei muito bem o que ainda acontece aqui, se acontece algo aqui. Este lugar, aqui, se chama Budak, é nas redondezas de Potocari, um subúrbio de Srebrenica, ao leste. O meu nome eu não sei, ao menos não consigo lembrar agora. Sim, se pudesse a levaria para Glogova, mas não tenho forças para isso. Também não lembro onde fica a aldeia de Glogova. Parei porque vi seus olhos, e me aproximei. São marrons, são bonitos. Seu corpo está tremendo, está gelado. Não, não sou daqui, isto eu sei, mas não faço a menor ideia de onde sou. Claro, não se preocupe com este sangue, eu vou ficar aqui com você. É muito bonito o marrom dos seus olhos. 


[Manoel Ricardo de Lima]

a luta das imagens,

                 
"Sem de modo algum desmerecer o trabalho dos selecionados (até porque admiro vários deles, além de ser amiga de alguns), não vi muito sentido em submeter um texto à avaliação. Considero a Granta brasileira um projeto equivocado, se não deletério, desde o princípio: trata-se da importação de um modelo de revista, que não leva em consideração as especificidades do nosso sistema literário e que traz consigo, a reboque, todo um modelo de literatura (para simplificar as coisas: o modelo dominante na literatura de língua inglesa) o qual, a médio prazo, pode ter conseqüências devastadoras para a diferença e a diversidade da literatura que praticamos por aqui. Este modelo, como pudemos ver recentemente nas entrevistas já célebres da Luciana Villas-Bôas e do Sergio Machado, já vem produzindo estragos tremendos na relação das editoras com os novos autores. Não é por acaso que a edição em inglês da revista traz o título "The Best of Young Brazilian Novelists", e não "Brazilian Writers": afirma-se, assim, uma suposta primazia do romance (novel) sobre as demais formas e gêneros, mesmo que para isso seja preciso apresentar contos como se fossem capítulos de romances em andamento. Busca-se, com isso, reprimir a experimentação, que considero fundamental em qualquer trabalho artístico, em prol de um padrão comercial de legibilidade e valor. Estou fora."

Veronica Stigger
[declaração na íntegra a uma matéria da Folha de SP, data: 16.07.2012]

e a quem gosta de esticar, a tal matéria:

segunda-feira, 2 de julho de 2012

amizade,


[guga, carlos e manoel, casa de carlos e adriana, foto de júlia. 
01.07.2012, fortaleza, cearazim de meu deus e meu diabo]

"Questa impresione di una prossimità per cosí dire excessiva
è ancora accresciuta dal gesto silenzioso delle mani che si
stringono en basso, appena visibili. Mi è sempre parso che
questo quadro contenga una perfetta allegoria dell'amicizia.
Che cosé, infatti, l'amicizia, se non una prossimità tale che
non è possibilile farsene né una rappresentazione né un concetto?"

Giorgio Agamben, L'amico, a partir de um quadro de Giovanni
Serodine, Incontro de San Pietro e San Paolo sulla via del 
martirio, 1624-25. [abaixo]