segunda-feira, 30 de julho de 2012

Søren Aabye Kierkegaard,



Aconteceu num teatro haver fogo nos bastidores. O palhaço 
apareceu para informar disso o público. As pessoas pensaram 
que era uma piada e aplaudiram. Ele repetiu. As pessoas 
jubilaram ainda mais.
       
em Diapsalmata

terça-feira, 17 de julho de 2012

dança no andar de cima,


Dança no andar de cima é um espaço de produção, criação e investigação em arte contemporânea, localizado em Fortaleza, no Ceará. O encontro, Uma conversa: poesia, aconteceu no dia 23 de junho de 2012, às 18:00, com leituras de poemas e conversa com Carlos Augusto Lima, Júlia Studart, Leonardo Gandolfi e Manoel Ricardo de Lima. As fotografias são da querida Denise Mustafa. 


de uma conversa amena com júlia lopes: eu só te aguardo, não te espero mais. ao tempo em que rio quando esquecer os óculos e promessas e felicitações de aniversário; mas não me olha, pois promete trazer lembranças do free shop para a menina um dia. ali, os campeões anônimos do futevôlei em vibração e torcida. esqueço a última fala, remexo os bolsos. se tocam como se tocariam homens rudes e troncos rijos. desfiei o frango do almoço para compor o jantar: digo. ela: não sei bem o que esperar da vida. eu: você pode combinar com queijo e presunto e pão. e diz: estou preocupada, avancei o sinal em hora suspeita, ele irá dizer de mim qualquer e vou chorar. eu: tento um consolo, mas me assusto com o voo rasante do helicóptero sem luzes, sem sinalização. que imprudente magnata pilotaria tão alta noite e breu, tão preciso na hora do abraço? penso. ela: eu queria ter coragem de dizer. eu: torço para que você apenas diga. ela: ouço, agora, trovões fora de época, do tempo. depois de chorar horrores, de sofrer a encalhar o corpo, escreveremos um livro paradidático a ser adotado nas melhores escolas sobre o sentido oculto de cada parágrafo desse infortúnio e conturbado enredo chamado amor. 
[Carlos Augusto Lima] 


p.s. infelizmente as linhas do poema não puderam ser mantidas por causa do espaço limitado do blog. 



viêt-công
ele quer saber: são
capazes de guardar
segredo? ele
quer saber se o
segredo pode
curar, provocar uma
revira-volta, trazê-lo
pra mais perto. fala
um, dois dialetos
que ninguém entende
e conserva o hábito
de alimentar
patos pela manhã. às
vezes é flagrado
tecendo cálculos
de alegria
num pedaço de
terra no brasil, duas
cervejas por dia, chá
com gengibre e
mel de rosmaninho


os amigos foram
morar no
marrocos. ele
também não
parece francés e
nunca sabe
muito bem, não
faz idéia do que
veio fazer aqui no
meio de tanta
gente. ele também
não diz, mas o
segredo, como todo
o resto, pode ser
apenas invenção. ele
também não diz
se fez um amigo
ou se morre um
pouco a cada dia
mais rápido que
todos nós

[Júlia Studart]



Tiquetaque

Hoje o drama interno de Gancho
atingiu novo estágio e ele precisou ser
implacável com Wendy Darling,
por que ela insiste em se tornar vítima
para despertar atenção e pena dos outros?

Gancho então pensa um pouquinho mais,
as lembranças se apagam e no lugar delas
outra coisa fica, i.e., ao pôr os pingos nos is,
vê que está exagerando, vê que o distrai
a contemplação de seus próprios dias
e que o diverte o desenrolar da vida dos outros.

Sempre me distraio com a contemplação
dos meus próprios dias, diz o capitão,
sempre me divirto com o desenrolar
da vida dos outros, completa ele.

[Leonardo Gandolfi]


Sertão
          Estou há algumas horas na frente desse campo aberto, um terreno roto, contra meus próprios ossos. Algumas horas, pode ser, é o que penso, mas posso estar aqui há vários dias e, assim, estar aqui há semanas, ou há meses. Mas não sei, tanto tempo assim já teria morrido, ou de frio ou de fome ou à bala. Aliás, estou com muita fome. Mas talvez tenha parado aqui apenas por alguns minutos e o tempo não passa disso. Mas não sei. Apare melhor a sua cabeça, isso. Daqui de onde estou o que vejo é um campo horizontal que se estende até aonde minha vista consegue esbarrar e, bem ali, adiante, até aquelas primeiras montanhas, tudo continua desmoronando. O terreno me parece muito inseguro, existem uns barrancos de areia esparramados, algumas linhas de madeira, de ferro, de tecido podre e, acho, algum resto de explosivos.
          Não há mais grama, e sinto frio.
          Sobra a areia vermelha e estas moscas ao redor de tudo por aqui. 
        Tenho um papel em um dos meus bolsos do casaco, pode ser também uma faca, uma ausência. Acho que o mês em que estamos é novembro, o ano talvez seja 1995, e não sei muito bem o que ainda acontece aqui, se acontece algo aqui. Este lugar, aqui, se chama Budak, é nas redondezas de Potocari, um subúrbio de Srebrenica, ao leste. O meu nome eu não sei, ao menos não consigo lembrar agora. Sim, se pudesse a levaria para Glogova, mas não tenho forças para isso. Também não lembro onde fica a aldeia de Glogova. Parei porque vi seus olhos, e me aproximei. São marrons, são bonitos. Seu corpo está tremendo, está gelado. Não, não sou daqui, isto eu sei, mas não faço a menor ideia de onde sou. Claro, não se preocupe com este sangue, eu vou ficar aqui com você. É muito bonito o marrom dos seus olhos. 


[Manoel Ricardo de Lima]

a luta das imagens,

                 
"Sem de modo algum desmerecer o trabalho dos selecionados (até porque admiro vários deles, além de ser amiga de alguns), não vi muito sentido em submeter um texto à avaliação. Considero a Granta brasileira um projeto equivocado, se não deletério, desde o princípio: trata-se da importação de um modelo de revista, que não leva em consideração as especificidades do nosso sistema literário e que traz consigo, a reboque, todo um modelo de literatura (para simplificar as coisas: o modelo dominante na literatura de língua inglesa) o qual, a médio prazo, pode ter conseqüências devastadoras para a diferença e a diversidade da literatura que praticamos por aqui. Este modelo, como pudemos ver recentemente nas entrevistas já célebres da Luciana Villas-Bôas e do Sergio Machado, já vem produzindo estragos tremendos na relação das editoras com os novos autores. Não é por acaso que a edição em inglês da revista traz o título "The Best of Young Brazilian Novelists", e não "Brazilian Writers": afirma-se, assim, uma suposta primazia do romance (novel) sobre as demais formas e gêneros, mesmo que para isso seja preciso apresentar contos como se fossem capítulos de romances em andamento. Busca-se, com isso, reprimir a experimentação, que considero fundamental em qualquer trabalho artístico, em prol de um padrão comercial de legibilidade e valor. Estou fora."

Veronica Stigger
[declaração na íntegra a uma matéria da Folha de SP, data: 16.07.2012]

e a quem gosta de esticar, a tal matéria:

segunda-feira, 2 de julho de 2012

amizade,


[guga, carlos e manoel, casa de carlos e adriana, foto de júlia. 
01.07.2012, fortaleza, cearazim de meu deus e meu diabo]

"Questa impresione di una prossimità per cosí dire excessiva
è ancora accresciuta dal gesto silenzioso delle mani che si
stringono en basso, appena visibili. Mi è sempre parso che
questo quadro contenga una perfetta allegoria dell'amicizia.
Che cosé, infatti, l'amicizia, se non una prossimità tale che
non è possibilile farsene né una rappresentazione né un concetto?"

Giorgio Agamben, L'amico, a partir de um quadro de Giovanni
Serodine, Incontro de San Pietro e San Paolo sulla via del 
martirio, 1624-25. [abaixo]

sexta-feira, 15 de junho de 2012