segunda-feira, 23 de abril de 2012

Caderno de Leituras n.5




Edições Chão da Feira, Caderno de Leituras n.5
Lisboa/Rio de Janeiro, Abril de 2012
IMAGEM, DERIVA E DANÇA
por Júlia Studart

1.
Em entrevista concedida a Pedro G. Romero, Georges Didi-Huberman afirma que um dos conceitos mais importantes para o seu trabalho é o de sintoma. E deixa muito claro que com isso não quer dizer que busque o que provoca ou causa o sintoma, o “sintoma de”. O que procura, na verdade, são os próprios sintomas [porque sintoma é um conceito semiótico – fala do sentido –, mas é também corporal]. E isso é precisamente um gesto: um movimento do corpo que se encontra investido de certa capacidade de significado ou de expressão. É importante remeter ao sentido da palavra grega “syntoma”, que tem a ver diratemente com queda, com naufrágio, com derrubada, coincidência e acontecimento fortuito [ANTELO, 2009, p. 74]. E a imagem, por sua vez, está numa relação direta com o gesto, com o corpo, mais ou menos próxima a essa deliberação, a essa atribuição. Porque, lembra Didi-Huberman, o que interessa é, de fato, o que acontece entre o mundo dos signos e o mundo do corpo, e que isso é o que seria, precisamente, uma imagem.
Assim, Didi-Huberman elabora o seu conceito de imagem a partir da expressão fugaz da imagem mariposa, algo muito mais perto do corpo e do desejo, uma imagem vivente e fulgurada:

Se você realmente quiser ver as asas de uma mariposa, primeiro você tem que matá-la e logo colocá-la em uma vitrina. Uma vez morta, e só então, você pode contemplá-la tranquilamente. Mas se você quer conservar a vida, que afinal é o mais interessante, só verá as asas fugazmente, em muito pouco tempo, um abrir e fechar de olhos. Isto é a imagem. A imagem é uma mariposa. Uma imagem é algo que vive e que nos mostra sua capacidade de verdade em um flash. [DIDI-HUBERMAN, 2007]

Ou seja, a “capacidade de verdade” só ocorre em momentos muito breves, brevíssimos. Esta proposição, apontada na entrevista citada, comparece antes no texto “A imagem mariposa” [2006], quando Didi-Huberman diz acerca dos enganos do pensamento, que constituem, de certa maneira, a ambivalência da imagem, da imagem mariposa, em alguns pontos: 1] afirma que é um erro crer que uma vez que aparece, a coisa está, permanece, resiste, persiste tal qual no tempo como em nosso espírito, que a descreve e conhece. Que uma coisa, como a mariposa, por exemplo, aparece senão para desaparecer num instante seguinte. Ou seja, temos sempre que levar em conta o ponto de vista temporal de sua fragilidade; 2] Depois, afirma acerca da permanência no tempo, que o que já não está permanece, resiste, persiste tanto no tempo como em nossa imaginação, que sempre rememora. 3] Por fim, diz ainda que toda aparição pode ser vista como uma dança ou como música, como um ritmo que vive da agitação, da palpitação e que morre do mesmo modo. O ponto importante é que, para ele, um conceito de imago é como se uma aparição visual e, ao mesmo tempo, uma experiência corporal.
No mesmo texto, Didi-Huberman faz também algumas breves alusões ao filósofo e historiador francês Jules Michelet para referendar as suas teses acerca da imagem. Chama a sua atenção, principalmente, a dedicação e o empenho de Michelet ao observar detidamente as mariposas, numa espécie de lepidopterologia depurada, tanto que passa a chamá-las de “imperceptíveis construtoras” de formas. É que Michelet reclamava e exigia uma maior aproximação a estes insetos, porque se poderia estabelecer a partir deles algum caráter de renovação do pensamento da arte. É interessante lembrar que no livro de Roland Barthes dedicado aos procedimentos de Michelet, ele vai constituir um sintoma para o pensamento de Michelet, como deliberação, o de que este pensador sofria de terríveis enxaquecas [o que nos leva de volta ao problema do sintoma tão caro a Didi-Huberman, tanto quanto ao problema do gesto e do corpo como significado – ou sentido – e expressão]. Uma passagem do texto de Barthes acerca disso é fundamental; diz ele:

A doença de Michelet é a enxaqueca, esse misto de ofuscamento e de náusea. Tudo para ele é enxaqueca: o frio, a tempestade, a primavera, o vento, a história que ele narra. Esse homem que deixou uma obra enciclopédica feita de um discurso ininterrupto de 60 volumes, declara-se a todo momento “ofuscado, sofredor, fraco, vazio”. [BARTHES, 1991, p. 15]

Para Barthes, Michelet é um doente da história, ou um doente de história. Tanto que procura esclarecer este movimento próprio em torno das enxaquecas de Michelet como uma demarcação do percurso que ele provoca através de suas narrativas e do seu estilo interrompido para cumprir um sentido de ritualidade. Chama-lhe a atenção o caráter enciclopédico da obra de Michelet como uma busca desenfreada para a compreensão de todos os tempos – “da era dos répteis a Waterloo – e também de todas as ordens possíveis de objetos históricos – da invenção da infantaria à alimentação do bebê inglês” [BARTHES, 1991, p. 23] e da sua participação política, e aí tanto faz se com a desmedida de suas enxaquecas ou das suas anotações. Para Barthes, a história só pode ser – como para Michelet – um objeto de apropriação quando se constitui como um objeto verdadeiro, provido de duas extremidades: de um lado, a história como alimento pleno, ovo ou tecido; de outro lado, quando passa a ser e é a história, uma filosofia da história; mas, por fim, ainda numa terceira possibilidade, a história consumada, terminada e realizada por um lado e, ao mesmo tempo, por outro, ambivalente, devorada, ingerida e pronta a ressuscitar o historiador.

2.
O escritor angolano-português Gonçalo M. Tavares, por sua vez, provoca esta dimensão da imagem em sua literatura como um corpo que dança, como um corpo que precisa treinar até ser FUNDO: “O corpo é estranho e FUNDO / Treinar o corpo a ser FUNDO. / Ser Profundo nos ENSAIOS e mostrá-lo depois à superfície. / SER PROFUNDO no dia da EXIBIÇÃO Profunda” [TAVARES, 2001, p. 115]. Para ele, a literatura comparece como um corpo-dançarino, porque a literatura se enfrenta e se apruma como uma resistência e como um pensamento para a resistência no mundo agora, ou seja, quando todo este seu gesto pode ser lido no movimento de mariposear. A partir daí é possível perceber a tentativa da mobilidade de escrita de Gonçalo M. Tavares, a escrita como um corpo que se move, quando ao mesmo tempo em que procura se desvincular de uma linguagem apenas literária e se aproximar da filosofia, procura também se desvincular da filosofia e aproximar a palavra da literatura; por isso, sempre, a escrita como um corpo que dança entre a ficção e a demonstração, o delírio e a lógica, a abertura do sentido e a sua validação etc. O que é possível ler no fragmento abaixo ao armar o problema entre o livro de filosofia e o livro de poemas como máquinas diferentes e, ao mesmo tempo, indistintas:

[...]
Quero comprar uma máquina que pense por mim.
Tenho o livro de um filósofo.
Tenho 2 livros de um filósofo.
Um livro é uma máquina que pensa por mim
e é uma máquina barata.
Mas eu não quero que pensem por mim sempre
da mesma maneira.
O mesmo livro pensa sempre da mesma maneira.
Se eu fechar o livro, calo-me, e as pedras pesam-me
mais no crânio.
Se eu abrir o livro começo a falar, mas digo sempre
a mesma coisa.

Alguém me disse que um livro de poesia é diferente.
É uma máquina muito mais rápida.
A cada vez que passa, passa de outra maneira.
[...]
[TAVARES, 2005, p. 7-8]

Assim, Gonçalo M. Tavares elabora o que podemos chamar, com Barthes, de seu grau zero. Uma escrita que vem como um corpo que constantemente hesita entre um termo e outro, neste jogo nada claro entre polaridades – nem um nem outro, mas também um e outro ao mesmo tempo, um ne-uter –, na sua abertura ou extinção do sentido, na dissolução do conflito gerador de sentido que move o paradigma da imagem, a partir da figuração de uma imagem que dança ou de uma imagem da dança: constituir as filigranas do mariposeio, uma imagem mariposa, numa escrita que pode dançar ou ao menos perguntar a si própria se é capaz de dançar.

Bibliografia citada:
ANTELO, Raúl. Acaso, acidente In: LIMA, Manoel Ricardo de. Quando todos os acidentes acontecem. Rio de Janeiro, 7Letras, 2009. 
BARTHES, Roland. Michelet. Trad. Paulo Neves. São Paulo, Cia das Letras, 1991.
______. O grau zero da escrita. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo, Martins Fontes, 2004.
DIDI-HUBERMAN, Georges.  La Imagen Mariposa. Trad. Juan José Lahuerta. Barcelona: Mudito & Co., 2007.
______ . Un conocimiento por el montaje. Edições Minerva. Entrevista concedida a Pedro G. Romero, 2007. Disponível em:
TAVARES, Gonçalo M. Livro da dança. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.
______. O Homem ou é Tonto ou é Mulher. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.

segunda-feira, 26 de março de 2012

defesa da tese, 30.03.2012



O Senhor Gonçalo M. Tavares é um poeta que parece não necessitar mais, minimamente, de qualquer ideia de verso ou de linha ou de frase, esta discussão não é mais a sua. É um poeta que sugere, contra e com o cogito, a hesitação e a emergência. A sua questão, ou propósito, é emergir o espírito livre na figuração errante de um dançarino sutil em meio a uma escrita oscilante, errante, que se pretende uma dança investigativa das conexões mais equivocadas e certeiras entre a existência e a linguagem. Isto é um pouco do que este trabalho se pretendeu como um treino da e para a lucidez, treinar a musculação da lucidez, diante de um mundo que muitas vezes não é nada e que parece também muitas vezes não ter questão alguma, um mundo que se apresenta apenas como extravio [da conclusão, outras anotações de abertura

domingo, 25 de março de 2012

Diário do Nordeste, dois

Diário do Nordeste, Caderno 3, 25.03.2012
.A linha instável do poema.


Na dança, Júlia Studart encontra referência para definir a tarefa da poesia. "É preciso criar um pouco mais de resistência. Sim, está posto, poesia não vende, mas a tarefa é outra: criar circuitos muito mais potentes e semoventes entre amigos poetas e leitores de poesia, dar corpo à poesia, mesmo que esta ação seja mínima e silenciosa, como dançarinos de Butoh".
A poeta conta que sempre gostou de poesia, embora não tenha sido uma criança que lesse muito. Nas memórias, lembranças dos pequenos cadernos de poemas escritos pela mãe. "Lembro que costumava roubar versos dela para escrever cartas para os namorados. Nem sei se ela sabe disso", recorda. O pai era um bom leitor de revistas de notícia e biografias. Tem lembranças de alguns poemas publicados em um caderno literário do colégio. "E não eram bons, obviamente", diz.
Em 2006, Júlia foi convidada para escrever um poema a partir do trabalho da artista visual Milena Travassos. O poema seria publicado em uma plaqueta chamada "Marcoaurélio!". Ela considera o trabalho um segundo flerte com a poesia. Fez com Milena outro trabalho chamado "Sonata", com um poema em prosa em catálogo de arte.
"Quase todos os meus poemas aparecem dessa colisão do meu olhar com a imagem. Ou seja, meu trabalho só se sustenta nesse contato, estabelecendo uma espécie de duo com outros sistemas de pensamento. ´[in-] ludo´, por exemplo, este poema publicado aqui, é um lugar imaginado e alucinado a partir do trabalho de um artista gráfico que gosto muito. Enfim, quando não estou lendo ou vendo nada - porque ler é ver - não consigo pensar em escrever um poema".
Júlia ainda é uma poeta inédita em livro. Diz estar com dificuldade de terminar o primeiro, por sempre achar que pode ser melhor do que está. Mas já teve poemas publicados em revistas, antologias e suplementos literários. "Mas continuo sendo uma poeta sem um único livro de poemas e acredito que há uma dignidade nisso", diz Júlia complementando que quer terminá-lo e publicá-lo ainda nesse ano. "É um desejo intenso. Talvez o que tem me inquietado mais nos últimos meses, embora não esteja efetivamente trabalhando nele agora. Enfim, acredito que saber a hora certa é ter o corpo todo voltado e tomado por isso, é viver um pouco essa inquietação com o poema, com a linha instável do poema. É quando talvez você desconfie que há alguma potência no que você faz. Talvez esta seja a hora", diz a poeta que já tem o convite e a editora para fazer o livro.
Júlia já morou em Curitiba, Florianópolis e Lisboa. Atualmente vive no Rio de Janeiro, mas diz que as cidades, como cartografias urbanas ou composições de pequenas cenas, não a interessam muito. "Gosto muito do que diz o Gonçalo M. Tavares, autor que investiguei no meu doutorado, que não se pode mais fazer livros ingênuos. E essa parece a nossa tarefa e urgência agora nesses tempos tão duros. Acho que a tarefa é um pouco maior, trazer um pensamento com nervo para a literatura, um pouco de lucidez e muita imaginação".
A poeta explica que o Rio a coloca em confronto não só com uma maior produção de poesia, mas também com um intenso circuito da arte que passa por lá e que é importante para a sua poesia. "Talvez outra vantagem esteja no maior número de pequenas editoras interessadas na publicação de poesia, mas acredito que essa resistência e persistência também apareça em outros lugares, em maior ou menor grau", pontua.

A poeta
Júlia Studart nasceu em Fortaleza, 1979. Poeta, publicou os livros de ensaios "Wittgenstein & Will Eisner - se numa cidade suas formas de vida" e "Livro Segredo e Infâmia"; a plaqueta "Marcoaurélio!" com a artista Milena Travassos; e organizou "Conversas, diferença n.1 - ensaios de literatura etc".

[por Dalviane Pires]
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1119011


[in-] ludo

você não tem certeza
agora, mas o fato é
quando você diz
sim, quando você
aceita entrar e
já não tem mais
volta. a decisão
provoca, em quase
todos os casos, um
tipo de confusão
visual

ilusões de distância
e profundidade. e
nem a carta
topográfica mais
detalhada que
leva na mão como
último trunfo pode
salvar sua vida

aqui debaixo
consegue contar
vinte e cinco soldados
de chumbo em volta
de uma clarabóia
central, dois soldados
observam você entre
a escada principal
inclinada e o pátio
externo de um possível
terceiro ou quarto piso

eles estão muito
perto, mas você não
sabe muito bem. ilusão
de distância, ou
dedução errada do
seu inconsciente. mas
você parece não
enxergar agora, e
desconfia – você tem
quase certeza – toda
geometria ou mapa
enganam facilmente, e
isto não é apenas um
episódio, um futurama
ou leeuwarden com
suas fábricas de chumbo
e instrumentos musicais

sábado, 24 de março de 2012

augusto dos anjos,



.Verso Exposto.
imagens, ruídos e leitura de poemas de
A u g u s t o d o s A n j o s
[100 anos da publicação de EU]
.carlito azevedo . franklin alves dassie . júlia studart . manoel ricardo de lima.



Projeto poética, Microfone aberto, 27.03.2012, às 18h30min
Teatro da Escola Sesc de Ensino Médio - ESEM
Av. Ayrton Senna, 5677 Jacarepaguá/ RJ - 21.3214.7404

sexta-feira, 23 de março de 2012

alexandre veras, o prófi: 23.03.1969


sob a árvore
um banco de praça

pés de ferro
pintados de preto

duas madeiras de lei
em disposição paralela

onde um ou outro
homem pássaro

vem pousar

[poema de alexandre veras, publicado no
suplemento 'afinidades eletivas', CE,
abril, 1992]

segunda-feira, 19 de março de 2012

clube da esquina, 40 anos


"Tonho e Cacau: amizade que vence o tempo"

Quando alguém passar
E perguntar por mim
Não esqueça de dizer
Até amanhã, até amanhã, até amanhã

Não esqueça de sorrir
Como eu tentei sorrir
Quando alguém lembrar
O que fui, o que sou, o que sei

Diz pros amigos que eu ainda sei dançar
Deixa o mundo virar para sempre

[trecho de Canção Postal, que é de outro disco, o do tênis]

domingo, 18 de março de 2012

Diário do Nordeste, um

Diário do Nordeste, Caderno 3, 18.03.2012
.O Chamado da linguagem.

A curiosidade individual transformou o menino "leitor voraz" em um poeta. Filho único, Carlos Augusto Lima recebeu dos pais o que chama de "estímulo da leitura abandonada". "Fui o sujeito leitor dos meus pais, que não eram grandes leitores. Mas eles viam na leitura algo muito positivo e me estimulavam a ler", recorda Carlos Augusto em uma conversa sobre influências literárias e criação artística.

Lia de tudo um pouco. Em um processo natural, passou pela literatura infanto-juvenil, mergulhou nas histórias em quadrinhos, leu o que a escola indicou - muitas vezes sem vontade - e sempre tratou a leitura como um ato solitário, pensamento que o acompanha até hoje.
A intimidade com os livros levou Carlos Augusto Lima a cursar Letras, mas antes mesmo de entrar na faculdade já rabiscava pensamentos e se apropriava de leituras "descobertas" pelo desejo de procurar, mexer, pensar. No curso, percebeu quem nem todos os colegas estavam familiarizados com os autores que lia, despertando, de certa forma, uma "ideia de sofrimento" pela ausência de um diálogo mais fluente sobre literatura e sobre poesia.
A alternativa encontrada por Carlos Augusto foi buscar esse diálogo fora dos muros da universidade, com outros jovens escritores interessados em discutir e produzir literatura, como o amigo e parceiro Manoel Ricardo de Lima.
Carlos Augusto sempre foi muito atento à poesia contemporânea "de gente viva", como ele destaca. Bebeu com muita sede na fonte da poesia brasileira da década de 70 e 80. Gostava da poesias Concreta e marginal. Flertou com escritores modernistas e fez um recorte da poesia americana da década de 20.
Nomes como Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Francisco Alvim, José Paulo Paes, Régis Bonvicino e Duda Machado fizeram - e ainda fazem - parte do repertório literário de Carlos Augusto. Ainda é próximo dos poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sempre preferiu a poesia, apesar do interesse por outros gêneros.
O poeta busca na memória o tempo que em precisou "matar" os autores que o influenciavam para dar personalidade aos próprios escritos. "Tenho uma autocrítica forte sobre o que mostrar. Conheço bem o cesto de lixo e como funciona a tecla delete", brinca Carlos Augusto complementando que "escrever é a soma de uma série de experiências e de leituras".
A criação
A poesia de Carlos Augusto não nasce de um esforço criativo. Não costuma sentar diante de um computador com a missão de produzir. "É necessário esperar o chamado das palavras. E é intermitente o chamado da linguagem", diz Carlos Augusto que define seu método de produção poética como "caótico".
Para Carlos Augusto quem escreve está em choque constante com a vida. E é justamente na vida comum que ele diz encontrar material poético para suas obras, sempre curtas, algumas chamadas de plaquetes. Prefere pensar "projetos de ações poéticas" a livros. "Escrevo e depois vou analisar o que funciona. Não existe pressa", pontua.
A trava do mercado
Sobre a produção versus consumo de poesia no Brasil, Carlos Augusto diz considerar uma relação tensa que tem a ver com a formação de leitores, que têm nas narrativas uma leitura mais familiar. "Escrever poesia é um ato solitário", afirma. "Muitas vezes o autor precisa bancar o livro, distribuir. Poesia não vende, não serve para nada e serve para tudo", diz parafraseando outro escritor.
Para além das dificuldades comuns de um poeta, Carlos Augusto diz que a cena literária cearense perde por não viabilizar a formação de uma crítica realmente preparada, o que consequentemente acaba enfraquecendo o que é produzido no Estado. "O que o sujeito pensa? Sinto falta da troca de ideias em relação a arte, da troca de pensamentos, até mais do que do compartilhamento do que é produzido", finaliza. 
[por Dalviane Pires]
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1116338


Bibliografia 
Objetos (Alpharrabio, 2008)
Vinte e sete de janeiro (Lumme Editor, 2008)
Manual de Acrobacia n.1 (Editora da Casa, 2010)
Três poemas do lugar (La Barca Editora, 2011)
O livro da espera (Alpharrabio, 2011)