O Senhor Gonçalo M. Tavares é um poeta que parece não necessitar mais, minimamente, de qualquer ideia de verso ou de linha ou de frase, esta discussão não é mais a sua. É um poeta que sugere, contra e com o cogito, a hesitação e a emergência. A sua questão, ou propósito, é emergir o espírito livre na figuração errante de um dançarino sutil em meio a uma escrita oscilante, errante, que se pretende uma dança investigativa das conexões mais equivocadas e certeiras entre a existência e a linguagem. Isto é um pouco do que este trabalho se pretendeu como um treino da e para a lucidez, treinar a musculação da lucidez, diante de um mundo que muitas vezes não é nada e que parece também muitas vezes não ter questão alguma, um mundo que se apresenta apenas como extravio [da conclusão, outras anotações de abertura]
segunda-feira, 26 de março de 2012
domingo, 25 de março de 2012
Diário do Nordeste, dois
Diário do Nordeste, Caderno 3, 25.03.2012
.A linha instável do poema.
.A linha instável do poema.
Na dança, Júlia Studart encontra referência para definir a tarefa da poesia. "É preciso criar um pouco mais de resistência. Sim, está posto, poesia não vende, mas a tarefa é outra: criar circuitos muito mais potentes e semoventes entre amigos poetas e leitores de poesia, dar corpo à poesia, mesmo que esta ação seja mínima e silenciosa, como dançarinos de Butoh".
A poeta conta que sempre gostou de poesia, embora não tenha sido uma criança que lesse muito. Nas memórias, lembranças dos pequenos cadernos de poemas escritos pela mãe. "Lembro que costumava roubar versos dela para escrever cartas para os namorados. Nem sei se ela sabe disso", recorda. O pai era um bom leitor de revistas de notícia e biografias. Tem lembranças de alguns poemas publicados em um caderno literário do colégio. "E não eram bons, obviamente", diz.
A poeta conta que sempre gostou de poesia, embora não tenha sido uma criança que lesse muito. Nas memórias, lembranças dos pequenos cadernos de poemas escritos pela mãe. "Lembro que costumava roubar versos dela para escrever cartas para os namorados. Nem sei se ela sabe disso", recorda. O pai era um bom leitor de revistas de notícia e biografias. Tem lembranças de alguns poemas publicados em um caderno literário do colégio. "E não eram bons, obviamente", diz.
Em 2006, Júlia foi convidada para escrever um poema a partir do trabalho da artista visual Milena Travassos. O poema seria publicado em uma plaqueta chamada "Marcoaurélio!". Ela considera o trabalho um segundo flerte com a poesia. Fez com Milena outro trabalho chamado "Sonata", com um poema em prosa em catálogo de arte.
"Quase todos os meus poemas aparecem dessa colisão do meu olhar com a imagem. Ou seja, meu trabalho só se sustenta nesse contato, estabelecendo uma espécie de duo com outros sistemas de pensamento. ´[in-] ludo´, por exemplo, este poema publicado aqui, é um lugar imaginado e alucinado a partir do trabalho de um artista gráfico que gosto muito. Enfim, quando não estou lendo ou vendo nada - porque ler é ver - não consigo pensar em escrever um poema".
Júlia ainda é uma poeta inédita em livro. Diz estar com dificuldade de terminar o primeiro, por sempre achar que pode ser melhor do que está. Mas já teve poemas publicados em revistas, antologias e suplementos literários. "Mas continuo sendo uma poeta sem um único livro de poemas e acredito que há uma dignidade nisso", diz Júlia complementando que quer terminá-lo e publicá-lo ainda nesse ano. "É um desejo intenso. Talvez o que tem me inquietado mais nos últimos meses, embora não esteja efetivamente trabalhando nele agora. Enfim, acredito que saber a hora certa é ter o corpo todo voltado e tomado por isso, é viver um pouco essa inquietação com o poema, com a linha instável do poema. É quando talvez você desconfie que há alguma potência no que você faz. Talvez esta seja a hora", diz a poeta que já tem o convite e a editora para fazer o livro.
Júlia já morou em Curitiba, Florianópolis e Lisboa. Atualmente vive no Rio de Janeiro, mas diz que as cidades, como cartografias urbanas ou composições de pequenas cenas, não a interessam muito. "Gosto muito do que diz o Gonçalo M. Tavares, autor que investiguei no meu doutorado, que não se pode mais fazer livros ingênuos. E essa parece a nossa tarefa e urgência agora nesses tempos tão duros. Acho que a tarefa é um pouco maior, trazer um pensamento com nervo para a literatura, um pouco de lucidez e muita imaginação".
A poeta explica que o Rio a coloca em confronto não só com uma maior produção de poesia, mas também com um intenso circuito da arte que passa por lá e que é importante para a sua poesia. "Talvez outra vantagem esteja no maior número de pequenas editoras interessadas na publicação de poesia, mas acredito que essa resistência e persistência também apareça em outros lugares, em maior ou menor grau", pontua.
A poeta
Júlia Studart nasceu em Fortaleza, 1979. Poeta, publicou os livros de ensaios "Wittgenstein & Will Eisner - se numa cidade suas formas de vida" e "Livro Segredo e Infâmia"; a plaqueta "Marcoaurélio!" com a artista Milena Travassos; e organizou "Conversas, diferença n.1 - ensaios de literatura etc".
[por Dalviane Pires]
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1119011[in-] ludo
você não tem certeza
agora, mas o fato é
quando você diz
sim, quando você
aceita entrar e
já não tem mais
volta. a decisão
provoca, em quase
todos os casos, um
tipo de confusão
visual
ilusões de distância
e profundidade. e
nem a carta
topográfica mais
detalhada que
leva na mão como
último trunfo pode
salvar sua vida
aqui debaixo
consegue contar
vinte e cinco soldados
de chumbo em volta
de uma clarabóia
central, dois soldados
observam você entre
a escada principal
inclinada e o pátio
externo de um possível
terceiro ou quarto piso
eles estão muito
perto, mas você não
sabe muito bem. ilusão
de distância, ou
dedução errada do
seu inconsciente. mas
você parece não
enxergar agora, e
desconfia – você tem
quase certeza – toda
geometria ou mapa
enganam facilmente, e
isto não é apenas um
episódio, um futurama
ou leeuwarden com
suas fábricas de chumbo
e instrumentos musicais
sábado, 24 de março de 2012
augusto dos anjos,
.Verso Exposto.
imagens, ruídos e leitura de poemas de
A u g u s t o d o s A n j o s
[100 anos da publicação de EU]
.carlito azevedo . franklin alves dassie . júlia studart . manoel ricardo de lima.
Projeto poética, Microfone aberto, 27.03.2012, às 18h30min
Teatro da Escola Sesc de Ensino Médio - ESEM
Av. Ayrton Senna, 5677 Jacarepaguá/ RJ - 21.3214.7404
sexta-feira, 23 de março de 2012
alexandre veras, o prófi: 23.03.1969
um banco de praça
pés de ferro
pintados de preto
duas madeiras de lei
em disposição paralela
onde um ou outro
homem pássaro
vem pousar
[poema de alexandre veras, publicado no
suplemento 'afinidades eletivas', CE,
abril, 1992]
segunda-feira, 19 de março de 2012
clube da esquina, 40 anos
"Tonho e Cacau: amizade que vence o tempo"
Quando alguém passar
E perguntar por mim
Não esqueça de dizer
Até amanhã, até amanhã, até amanhã
Não esqueça de sorrir
Como eu tentei sorrir
Quando alguém lembrar
O que fui, o que sou, o que sei
Diz pros amigos que eu ainda sei dançar
Deixa o mundo virar para sempre
[trecho de Canção Postal, que é de outro disco, o do tênis]
domingo, 18 de março de 2012
Diário do Nordeste, um
Diário do Nordeste, Caderno 3, 18.03.2012
.O Chamado da linguagem.
A curiosidade individual transformou o menino "leitor voraz" em um poeta. Filho único, Carlos Augusto Lima recebeu dos pais o que chama de "estímulo da leitura abandonada". "Fui o sujeito leitor dos meus pais, que não eram grandes leitores. Mas eles viam na leitura algo muito positivo e me estimulavam a ler", recorda Carlos Augusto em uma conversa sobre influências literárias e criação artística.
Lia de tudo um pouco. Em um processo natural, passou pela literatura infanto-juvenil, mergulhou nas histórias em quadrinhos, leu o que a escola indicou - muitas vezes sem vontade - e sempre tratou a leitura como um ato solitário, pensamento que o acompanha até hoje.
A intimidade com os livros levou Carlos Augusto Lima a cursar Letras, mas antes mesmo de entrar na faculdade já rabiscava pensamentos e se apropriava de leituras "descobertas" pelo desejo de procurar, mexer, pensar. No curso, percebeu quem nem todos os colegas estavam familiarizados com os autores que lia, despertando, de certa forma, uma "ideia de sofrimento" pela ausência de um diálogo mais fluente sobre literatura e sobre poesia.A alternativa encontrada por Carlos Augusto foi buscar esse diálogo fora dos muros da universidade, com outros jovens escritores interessados em discutir e produzir literatura, como o amigo e parceiro Manoel Ricardo de Lima.
Carlos Augusto sempre foi muito atento à poesia contemporânea "de gente viva", como ele destaca. Bebeu com muita sede na fonte da poesia brasileira da década de 70 e 80. Gostava da poesias Concreta e marginal. Flertou com escritores modernistas e fez um recorte da poesia americana da década de 20.
Nomes como Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Francisco Alvim, José Paulo Paes, Régis Bonvicino e Duda Machado fizeram - e ainda fazem - parte do repertório literário de Carlos Augusto. Ainda é próximo dos poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sempre preferiu a poesia, apesar do interesse por outros gêneros.
O poeta busca na memória o tempo que em precisou "matar" os autores que o influenciavam para dar personalidade aos próprios escritos. "Tenho uma autocrítica forte sobre o que mostrar. Conheço bem o cesto de lixo e como funciona a tecla delete", brinca Carlos Augusto complementando que "escrever é a soma de uma série de experiências e de leituras".
A criação
A poesia de Carlos Augusto não nasce de um esforço criativo. Não costuma sentar diante de um computador com a missão de produzir. "É necessário esperar o chamado das palavras. E é intermitente o chamado da linguagem", diz Carlos Augusto que define seu método de produção poética como "caótico".
Para Carlos Augusto quem escreve está em choque constante com a vida. E é justamente na vida comum que ele diz encontrar material poético para suas obras, sempre curtas, algumas chamadas de plaquetes. Prefere pensar "projetos de ações poéticas" a livros. "Escrevo e depois vou analisar o que funciona. Não existe pressa", pontua.
A trava do mercado
Sobre a produção versus consumo de poesia no Brasil, Carlos Augusto diz considerar uma relação tensa que tem a ver com a formação de leitores, que têm nas narrativas uma leitura mais familiar. "Escrever poesia é um ato solitário", afirma. "Muitas vezes o autor precisa bancar o livro, distribuir. Poesia não vende, não serve para nada e serve para tudo", diz parafraseando outro escritor.
Para além das dificuldades comuns de um poeta, Carlos Augusto diz que a cena literária cearense perde por não viabilizar a formação de uma crítica realmente preparada, o que consequentemente acaba enfraquecendo o que é produzido no Estado. "O que o sujeito pensa? Sinto falta da troca de ideias em relação a arte, da troca de pensamentos, até mais do que do compartilhamento do que é produzido", finaliza.
[por Dalviane Pires]
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1116338
A trava do mercado
Sobre a produção versus consumo de poesia no Brasil, Carlos Augusto diz considerar uma relação tensa que tem a ver com a formação de leitores, que têm nas narrativas uma leitura mais familiar. "Escrever poesia é um ato solitário", afirma. "Muitas vezes o autor precisa bancar o livro, distribuir. Poesia não vende, não serve para nada e serve para tudo", diz parafraseando outro escritor.
Para além das dificuldades comuns de um poeta, Carlos Augusto diz que a cena literária cearense perde por não viabilizar a formação de uma crítica realmente preparada, o que consequentemente acaba enfraquecendo o que é produzido no Estado. "O que o sujeito pensa? Sinto falta da troca de ideias em relação a arte, da troca de pensamentos, até mais do que do compartilhamento do que é produzido", finaliza.
[por Dalviane Pires]
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1116338
Bibliografia
Objetos (Alpharrabio, 2008)
Vinte e sete de janeiro (Lumme Editor, 2008)
Manual de Acrobacia n.1 (Editora da Casa, 2010)
Três poemas do lugar (La Barca Editora, 2011)
Manual de Acrobacia n.1 (Editora da Casa, 2010)
Três poemas do lugar (La Barca Editora, 2011)
O livro da espera (Alpharrabio, 2011)
segunda-feira, 5 de março de 2012
Libéria, Monróvia
Quando um campo de futebol é impreciso, é outra coisa.
[Fotografia feita por Álvaro Studart, em missão de paz
da ONU durante todo o ano de 2012]. Ovoé, que tudo
seja carregado de cores fortes, esperança e calmaria.
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