sexta-feira, 23 de março de 2012

alexandre veras, o prófi: 23.03.1969


sob a árvore
um banco de praça

pés de ferro
pintados de preto

duas madeiras de lei
em disposição paralela

onde um ou outro
homem pássaro

vem pousar

[poema de alexandre veras, publicado no
suplemento 'afinidades eletivas', CE,
abril, 1992]

segunda-feira, 19 de março de 2012

clube da esquina, 40 anos


"Tonho e Cacau: amizade que vence o tempo"

Quando alguém passar
E perguntar por mim
Não esqueça de dizer
Até amanhã, até amanhã, até amanhã

Não esqueça de sorrir
Como eu tentei sorrir
Quando alguém lembrar
O que fui, o que sou, o que sei

Diz pros amigos que eu ainda sei dançar
Deixa o mundo virar para sempre

[trecho de Canção Postal, que é de outro disco, o do tênis]

domingo, 18 de março de 2012

Diário do Nordeste, um

Diário do Nordeste, Caderno 3, 18.03.2012
.O Chamado da linguagem.

A curiosidade individual transformou o menino "leitor voraz" em um poeta. Filho único, Carlos Augusto Lima recebeu dos pais o que chama de "estímulo da leitura abandonada". "Fui o sujeito leitor dos meus pais, que não eram grandes leitores. Mas eles viam na leitura algo muito positivo e me estimulavam a ler", recorda Carlos Augusto em uma conversa sobre influências literárias e criação artística.

Lia de tudo um pouco. Em um processo natural, passou pela literatura infanto-juvenil, mergulhou nas histórias em quadrinhos, leu o que a escola indicou - muitas vezes sem vontade - e sempre tratou a leitura como um ato solitário, pensamento que o acompanha até hoje.
A intimidade com os livros levou Carlos Augusto Lima a cursar Letras, mas antes mesmo de entrar na faculdade já rabiscava pensamentos e se apropriava de leituras "descobertas" pelo desejo de procurar, mexer, pensar. No curso, percebeu quem nem todos os colegas estavam familiarizados com os autores que lia, despertando, de certa forma, uma "ideia de sofrimento" pela ausência de um diálogo mais fluente sobre literatura e sobre poesia.
A alternativa encontrada por Carlos Augusto foi buscar esse diálogo fora dos muros da universidade, com outros jovens escritores interessados em discutir e produzir literatura, como o amigo e parceiro Manoel Ricardo de Lima.
Carlos Augusto sempre foi muito atento à poesia contemporânea "de gente viva", como ele destaca. Bebeu com muita sede na fonte da poesia brasileira da década de 70 e 80. Gostava da poesias Concreta e marginal. Flertou com escritores modernistas e fez um recorte da poesia americana da década de 20.
Nomes como Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Francisco Alvim, José Paulo Paes, Régis Bonvicino e Duda Machado fizeram - e ainda fazem - parte do repertório literário de Carlos Augusto. Ainda é próximo dos poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sempre preferiu a poesia, apesar do interesse por outros gêneros.
O poeta busca na memória o tempo que em precisou "matar" os autores que o influenciavam para dar personalidade aos próprios escritos. "Tenho uma autocrítica forte sobre o que mostrar. Conheço bem o cesto de lixo e como funciona a tecla delete", brinca Carlos Augusto complementando que "escrever é a soma de uma série de experiências e de leituras".
A criação
A poesia de Carlos Augusto não nasce de um esforço criativo. Não costuma sentar diante de um computador com a missão de produzir. "É necessário esperar o chamado das palavras. E é intermitente o chamado da linguagem", diz Carlos Augusto que define seu método de produção poética como "caótico".
Para Carlos Augusto quem escreve está em choque constante com a vida. E é justamente na vida comum que ele diz encontrar material poético para suas obras, sempre curtas, algumas chamadas de plaquetes. Prefere pensar "projetos de ações poéticas" a livros. "Escrevo e depois vou analisar o que funciona. Não existe pressa", pontua.
A trava do mercado
Sobre a produção versus consumo de poesia no Brasil, Carlos Augusto diz considerar uma relação tensa que tem a ver com a formação de leitores, que têm nas narrativas uma leitura mais familiar. "Escrever poesia é um ato solitário", afirma. "Muitas vezes o autor precisa bancar o livro, distribuir. Poesia não vende, não serve para nada e serve para tudo", diz parafraseando outro escritor.
Para além das dificuldades comuns de um poeta, Carlos Augusto diz que a cena literária cearense perde por não viabilizar a formação de uma crítica realmente preparada, o que consequentemente acaba enfraquecendo o que é produzido no Estado. "O que o sujeito pensa? Sinto falta da troca de ideias em relação a arte, da troca de pensamentos, até mais do que do compartilhamento do que é produzido", finaliza. 
[por Dalviane Pires]
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1116338


Bibliografia 
Objetos (Alpharrabio, 2008)
Vinte e sete de janeiro (Lumme Editor, 2008)
Manual de Acrobacia n.1 (Editora da Casa, 2010)
Três poemas do lugar (La Barca Editora, 2011)
O livro da espera (Alpharrabio, 2011) 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Libéria, Monróvia



Quando um campo de futebol é impreciso, é outra coisa. 
[Fotografia feita por Álvaro Studart, em missão de paz 
da ONU durante todo o ano de 2012]. Ovoé, que tudo
seja carregado de cores fortes, esperança e calmaria. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

malvinas, raúl antelo


Pela reabertura das negociações e pela paz no Atlântico Sul


A iminente comemoração dos trinta anos da guerra das Malvinas vem provocando uma série de ações e avaliações inéditas. Exercícios bélicos britânicos que não desdenham armamento nuclear; novas explorações de petróleo na região, que se somam à pesca predatória já empreendida por países como Japão, cujos efeitos, aliás, sentem-se em nossas mesas, dia a dia, com o sumiço de variedades outrora freqüentes. No entanto, a cobertura corriqueira da mídia insiste no caráter anormal das declarações do governo argentino, tirando relevância, ou mesmo naturalizando, a presença do Príncipe, em roupas de combate, no arquipélago. Estaríamos, nos dizem, frente a um clássico exemplo de contradições políticas em torno a uma soberania inconteste, questão à qual não é sensato dedicar nem tempo nem reflexão. Mas é possível qualificar o diferendo de Malvinas de contradição lógica? Mesmo Kant e, na sua esteira, filósofos como Galvano Della Volpe, partindo da diferenciação estabelecida pelo antecessor alemão entre a contradição lógica, que é sempre uma contradição entre conceitos, e a oposição real, entre os objetos do mundo, que é sempre uma disputa de poder, chegaram à certeza de que o antagonismo não pode ser uma contradição, simplesmente porque a contradição não pode acontecer entre objetos lógicos. A filosofia hegeliana, banalizada hoje pela mídia, torna os antagonismos sociais meras contradições, porque opera com um pensamento idealista que reduz a realidade a conceitos, quando o caso Malvinas nos ilustra, pelo contrário, algo mais importante ainda: que os antagonismos sociais não são contradições, nem oposições reais. Antes pelo contrário, são o limite de toda objetividade, o contorno do que significa acatar a lei social universal e, portanto, iluminam também o instante em que a sociedade descobre sua própria impossibilidade de constituir-se como ordem objetiva necessária.
Apesar de todas as exortações das Nações Unidas, a recusa britânica em sentar-se à mesa de negociações representa esse limite que o universalismo idealista, também conhecido como colonialismo, decide ignorar: as condições históricas de uma produção simbólica — o fato de o Atlântico Sul ter sido, tradicionalmente, uma área de paz, e assim precisa ser mantido — condições que são uma parte da produção histórica ela mesma.
Em plena I Grande Guerra, e em Buenos Aires, então comemorando seu primeiro Centenário de independência, Rui Barbosa constatava uma regra da modernidade ocidental, qual seja, a de que cresce, com efeito, a convicção de que os povos mais civilizados são os que mais lutam e investem em armamento, colaborando com o pensamento dominante no sentido de apresentar a guerra como uma divindade que sagra e purifica os estados. A recente fábula cinematográfica da Baronesa Thatcher vê nela uma mulher indomável, como se isso fosse uma vitória do gender. Contra o risco de que o ideal do estado se corrompa no ideal do dinheiro, ou diante da impossibilidade de ocultar essa inegável conivência, a única alternativa possível residiria na guerra. Portanto, a guerra, dizia Rui Barbosa em 1916, é um dos fatores essenciais da moralidade ocidental, uma vez que, graças a ela, a ética passa a se separar completamente da vontade, porque aquele que primeiro usar a força, sem medir o sangue derramado, terá sempre consigo, inexoravelmente, grande vantagem sobre o adversário.
Mas, cabe ainda sermos neutrais? Não se trata apenas de ser neutral, como Rui propunha aos países do Atlântico Sul em 1916. Trata-se, pelo contrário, de que os grandes acatem a lei e se sentem à mesa de negociações para garantirem a paz. Caso contrário, nunca terão sido mais válidas as palavras de Harold Pinter, em War: “The dead are dirt / The lights go out / The dead are dust”. Aprendamos da poeira do tempo.
Pela imediata reabertura das negociações e pela paz na região.

[Raúl Antelo, fevereiro, 2012]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

aurora por dentro,


Nome: Aurora
Espécie: Felina
Raça: Siamês
Sexo: Fêmea
Idade: 06 anos                               
Proprietário: Júlia/Manoel
Veterinário: Dr. João Paulo


LAUDO RADIOGRÁFICO
IMAGEM RADIOGRÁFICA DA CAVIDADE TORÁCICA
[SEM SEDAÇÃO]

- Silhueta cardíaca de configuração anatômica [normal], sem evidenciar presença de aumento significativo das câmaras cardíacas ou outras alterações radiográficas visíveis;

- Parênquima pulmonar de transparência levemente alterada, evidenciando presença de leve aumento da radiodensidade do parênquima pulmonar [infiltrado alveolar/edema pulmonar?], com congestão da árvore brônquica, à esclarecer [bronquite/processo alérgico inespecífico, diferencial para bronco-pneumonia?];

- Traquéia, aorta torácica e veia cava caudal de aspecto preservado [normal], sem evidenciar presença de alterações radiográficas visíveis.

Rio de Janeiro, 02 de Fevereiro de 2012.