sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

curso: casa do saber: a alegria,

Artes

A ALEGRIA

ARTE, LITERATURA E FILOSOFIA

por Manoel Ricardo de Lima

O curso procura compor uma apresentação da alegria como uma espécie de sintaxe de formação da vida moderna/contemporânea. Assim, a partir de alguns elementos da arte e da cidade modernas como estruturas oscilantes, é possível montar um percurso do conceito e seus modos de uso. O curso se divide numa amostragem de questões da alegria relativas à literatura, a arte e a filosofia. 


Início: 10 JAN

Duração: 4 encontros / um por semana

Dias/horários: Terças-Feiras, às 20h (10/01, 17/01, 24/01, 31/01)

Valor: R$ 180,00 na inscrição + 1 parcela de R$ 180,00



Tel.: (21) 2227-2237 
Horário de funcionamento: segunda a sexta: 11h às 20h

10 JAN | 1. A RUA [O FEÉRICO E A VELOCIDADE]
A alegria contra o caráter trágico da existência. A alegria como a força que move a fantasia inserida na nova paisagem urbana com os seus novos estados de movimento veloz.

17 JAN | 2. O RISO [A MARIONETE, O AUTÔMATO, O CLOWN]
Do romance ao cinema: personagens que aparecem como interferência e composição do universo proibido do riso feliz, do espírito livre e da condição daquilo que é leve e capaz de dançar.

24 JAN | 3. O JOGO [A ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE]
A poesia moderna e a tarefa da alegria a partir de Oswald de Andrade: a literatura como um jogo e a linguagem como lugar da atenção para a alegria.

31 JAN | 4. O NEUTRO [BURLAR A ALEGRIA]
O neutro é uma ideia retirada de Roland Barthes que propõe uma espécie de estado de hesitação permanente que pode burlar, trapacear e provocar uma conversão aos conceitos abstratos, tal qual a alegria.

mario perniola [trad. davi pessoa],


sábado, 26 de novembro de 2011

O Senhor Henri,

Lançamento:
14 de Dezembro, no Chapitô [Bar Bartô], às 22h
Lisboa, Portugal


Texto publicado na edição O Senhor Henri [a partir do livro homônimo de Gonçalo M. Tavares] que será lançada no dia 14 de Dezembro, em Lisboa, a partir de uma belíssima peça em audio, apresentada pelo grupo "BOCA, palavras que alimentam" [Lisboa, Portugal].

Senhor Henri: absinto e reticências 
por Júlia Studart

Este O Senhor Henri, publicado pela primeira vez em 2003, que agora se apresenta nesta peça em áudio, é um desenho às avessas do poeta Henri Michaux [1899 – 1984], – conhecido por seus textos singulares, próximos do surrealismo, que oscilam entre descrições de mundos imaginários e uma espécie de inventário de sonhos –, traçado por Gonçalo M. Tavares. E é possível dizer que ele é e faz parte de uma imagem capturada por subtração, entre as ações do “anacronismo deliberado” e da “atribuição errônea”, como sugeriu Jorge Luis Borges em seu conto “Pierre Menard, autor do Quixote”. Não se pode deixar de pensar que este Senhor Henri, personagem de Gonçalo, é mútuo e, ao mesmo tempo, transparente ao seu outro, ao seu alter; primeiro porque ele insiste na construção de um universo íntimo, privado, em constante desequilíbrio, porém – note-se – mútuo à alucinação. Insiste também o tempo inteiro numa instabilidade do real, exatamente porque não pratica mais as sugestões paradoxais, mas apenas as imprecisões neutras da ambivalência, ou seja, da sua existência simultânea: “as calças não chegavam aos sapatos e os sapatos não chegavam às calças.”, que “as pessoas que têm azar não deixam de ter sorte.” e, ainda, “que nos dias que correm aprende-se por todos os lados do corpo.” Depois, sorrateiro, este Senhor Henri acha que se alguém do outro lado do balcão só quer saber das coisas de seu bairro “faz muito bem”.
O Bairro é uma série vertiginosa elaborada por Gonçalo M. Tavares, a partir da constituição de uma utopia, em torno da ideia e do conceito daquilo que ainda pode ser tomado como vizinhança. Nele habitam moradores perspicazes, entes mínimos de uma biblioteca de formação, ora equilibristas ora marionetes, reposicionados no mundo através da literatura pelo absurdo da convivência atemporal [eis o “anacronismo deliberado”] numa pequena cartografia poético-ficcional-urbana. O gesto desse projeto é constituir o inesperado na superposição de temporalidades avizinhadas, ou seja, é possível ler aí o conhecimento do futuro no passado, escavar os sulcos das superfícies anteriores e ter ao menos fragmentos dessas superfícies, como sobrevivências. A ideia de uma biblioteca pensada como vizinhança possibilita isso, tanto que Will Eisner, um dos mais importantes artistas de banda desenhada, inventor das “graphic novels” [novelas gráficas], no prefácio de sua novela gráfica intitulada A Vizinhança - Avenida Dropsie, diz que: “Vizinhança tem períodos de vida. Elas nascem, evoluem, amadurecem e morrem.” E, depois, que “As pessoas, não os prédios, são o coração da matéria.” Este projeto de Gonçalo M. Tavares tem a ver, pois, com uma morfologia da vitalidade pura, uma espécie de infância da linguagem, tanto que o próprio Gonçalo já disse muitas vezes que procura assemelhar este seu O Bairro à lógica da aldeia de Asterix, personagem de banda desenhada criada por Albert Uderzo e René Goscinny no ano de 1959, na França. Por isso é possível dizer que, assim como a aldeia de Asterix, este bairro de semoventes de Gonçalo M. Tavares é um lugar que resiste à invasão de bárbaros e que também é um estado excedente num espaço de pequenas dimensões, logo acolhedor e seguro.
Por outro lado, é possível pensar que estes senhores, se são todos vetores de uma mesma matéria, o coração da matéria, são desenhados também como corpos impossíveis, porque guilhotinados [já não é mais o Henri Michaux, mas um outro; o nome é o mesmo, mas quem assina é Gonçalo M. Tavares etc. Eis a “atribuição errônea”]. E, de certa forma, aparecem subtraídos também de suas cabeças à maneira dos retratos que os gravuristas franceses no final do século XVIII faziam das vítimas da guilhotina. Os gravuristas eram todos fascinados com a imagem daquela cabeça suspensa pelas mãos “sombrias e anônimas de um carrasco, numa evocação do gesto triunfante de Perseu ao segurar a cabeça monstruosa de Medusa”, lembra a professora e crítica brasileira Eliane Robert Moraes. Ela diz ainda que “eram as duplicatas da cena original da decapitação, quando as cabeças eram efetivamente isoladas do resto dos corpos para serem expostos à visão pública.” Ora, é interessante pensar, como ela sugere, que se havia a exibição, naquela separação do corpo em duas partes, e atraindo a atenção para a cabeça decapitada, pode-se dizer que a guilhotina é a primeira máquina de tirar retratos. Gonçalo, de certa maneira, inverte o procedimento, mas também guilhotina cada um de seus senhores; depois os sustenta não só pelas mãos, mas principalmente no desenho escrito de retratos inconclusos em que – ao mesmo tempo – é possível ver ali um rosto e é possível ver também nenhum rosto ou tantos outros, como se refizesse também, mesmo que de forma distinta, o gesto de Fernando Pessoa com seus heterônimos. Ou seja, um gesto interessantíssimo para rever e reler a tradição da literatura de Portugal, por exemplo.
Este O Senhor Henri segue bem a inserção de escrita alucinada de Michaux e, numa metamorfose, segue mais de perto ainda, mesmo se num afastamento, o método de composição da escrita do próprio Gonçalo, também sempre ambivalente. Henri Michaux, por exemplo, no pequeníssimo prefácio de seu livro Equador, publicado em 1929, que corresponde ao diário de uma viagem que realizou através dos Andes, das montanhas do Equador e das florestas do Brasil até chegar à foz do Amazonas, diz: “Um homem que não sabe viajar nem manter um diário, compôs este diário de viagem. Porém, subitamente assustado no momento de assiná-lo, atira a si próprio a primeira pedra. É tudo.” A personagem de Gonçalo M. Tavares, Senhor Henri, revolve as dobras das formas de especulação de Michaux, principalmente com os usos ininterruptos e sistemáticos do absinto e das reticências no início das frases ditas por Henri entre a alucinação e o titubeio, mas sem nunca perder de vista o dito firme e apontado: “... eu tenho um sistema geral do pensamento, chama-se absinto”, “... o infinito vem no absinto.”, “... hoje não vou tocar num copo. / ... haverá, então, alguém disponível para me despejar absinto pela garganta?” etc. O resto agora é aproveitar para ler e ouvir este texto: “... mais um copo de absinto, por favor.”   

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

veronica stigger,

Júlia,
Fosse meu aniversário em Lisboa,
compraria uns vinte pastéis de Belém
para viagem, atravessaria a rua,
me sentaria num dos bancos da praça
e, enquanto me lambuzasse com os doces,
lembraria que, dali de perto,
partiram as caravelas rumo ao Brasil.


[de massamorda, Dobra Editorial, 2011]

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

guillermo rosales,



















"Não sou um exilado político. Sou um exilado total.
Às vezes penso que, se tivesse nascido no Brasil, na
Espanha, na Venezuela ou na Escandinávia, também
teria fugido de suas ruas, seus portos e campos."

A casa dos náufragos, trad. Eduardo Brandão

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

homem de palavra[s],

Colóquio Internacional
Ruy Belo: Homem de palavra[s]
3 e 4 de novembro de 2011
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
*Agora, 4 de novembro, 14:30, Lisboa [12:30, Brasil]:

Foi mentira, sou ninguém: sobrevivência
trecho da conferência apresentada por Manoel Ricardo de Lima

a arte, mesmo a arte mais pessimista, por isso mesmo que não se conforma, é sempre uma proposição de felicidade. E a felicidade não pertence a ninguém não, a nenhuma classe, é de todos.” Janjão, personagem de Mário de Andrade, em O Banquete

Ruy Belo morreu em 1978. Neste mesmo ano publica-se Despeço-me da terra da alegria, seu último livro de poemas. No poema homônimo, escreve que “A vida tem aspectos criminosos”. [BELO, 2000, p. 27] Depois, num longo poema intitulado Fugitivo da catástrofe, empenha a palavra entre o nome e a história para articular a sua tarefa política com a poesia – mudar o tempo como forma primeira e possível para mudar o mundo – desde o primeiro verso: “Eu sou um fugitivo da catástrofe”. [BELO, 2000, p. 35] Isto é uma dimensão do transporte, da transposição. Aqui, é preciso levar em conta o que diz Walter Benjamin: a verdadeira catástrofe é que as coisas permaneçam exatamente como estão. Depois, o que diz Giorgio Agamben quando nos lembra que toda a busca da poesia moderna é orientada em direção a uma região inquieta e inquietante em que não há mais homens nem deuses, mas apenas nos encontramos com os restos de um antigo fetiche: a presença vazia e intangível, a nossa presença vazia, sagrada e miserável, fascinante e terrível. Ruy Belo, me parece, é um poeta da vida moderna em prospecção e defasagem anacrônica, o que trabalha a imagem moderna de uma ficção da origem numa espécie de ‘desregulação regrada’ da metamorfose – a forma por dentro – [e não apenas numa transformação, que indica a passagem de uma forma a outra], inverte essa imagem numa potência de fricção com o real e assim apresenta uma saída por dentro e por fora através da boca escura e a-sombrada do testemunho, uma boca obs-cena [a que nos dá a ver o fora da cena] que interpela o tempo a partir da sua condição de poeta e dos usos de sua língua imprópria. O testemunho, é importante lembrar, se implica com um desejo de não escrever, mas escrevendo, um estado de ânimo queixoso, funesto, mas também bem humorado, alegre, que aponta – o desejo de não escrever escrevendo – a isso que Agamben define para a experiência poética como a experiência de uma desubjetivação integral e sem reservas que afeta todo ato de palavra. Tamara Kamenszain, crítica e poeta argentina, amplia o problema pensando em Alejandra Pizarnik, uma poeta muito diferente de Ruy Belo e, mesmo de longe, sua contemporânea, e também por isso mesmo muito interessante se começamos a pensar numa recepção da poesia de Ruy Belo na América do Sul. Diz ela:

Quien escribe ya no sabra a qué lengua pertenece [‘mi exílio de lengua’, ‘no hablo yo en un idioma   argentino’ – Pizarnik / 'este país é propício à formação de ídolos [...]’ – Ruy BELO, 2002, p. 39] y quien lee se dejará distraer por lo que no entiende. A este fenômeno denso, oscuro, fragmentário, insuficiente pero extrañamente productivo, es al que podemos llamar poesía. Una paradoja que detiene, inmoviliza, da miedo y oscurece mientras va iluminando con su presencia la movilidad de la vida [‘Pasa que la condición de mi cuerpo vivo y moviente es la poesia’ – Pizarnik / ‘Tem de se escrever numa linguagem viva, caso contrário, se não morre, é porque já se nasceu morto.’ – Ruy BELO, 2002, p. 25]. Es que en su condición de puro presente, la poesía está siempre ahí, mientras que la prosa supone una búsqueda utópica de tiempos verbales que se escurren entre los dedos [‘no sé manejarme con los verbos complicados’ – Pizarnik / ‘Vou escrever prosa’ – Ruy Belo, 2002, 41, ouA prosa exige organização, equilíbrio nervoso, exercício diário. Mas agora só penso na prosa. Sabe? Tenho trinta e cinco anos, já posso ser presidente da república.’ [BELO, 2002, p. 37]. [KAMENSZAIN, 2007, p. 66-67]

[...]

http://www.gulbenkian.pt/index.php?object=160&article_id=2713&cal=eventos&langId=1