sábado, 5 de março de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

suplemento literário de minas,

Dossiê Gonçalo M. Tavares
A literatura como um corpo alterado
por Júlia Studart

Gonçalo M. Tavares nasceu em Luanda, Angola, em 1970, mas reside há muitos anos em Lisboa, Portugal. Publica o seu primeiro livro em 2001, intitulado Livro da Dança, um quase-poema longo, dividido e numerado em 114 fragmentos, mas que também se aproxima muito de um ensaio, numa relação direta com questões da filosofia e com questões que parecem ter sido retiradas de um pensamento da dança. E ensaio, no trabalho de Gonçalo M. Tavares, pode ser entendido de duas maneiras distintas e complementares: como procedimento de reflexão crítica, experiência intelectual livre, e como ação, movimento de algo que se repete inúmeras vezes, como uma coreografia, uma dança – o texto inteiro como um corpo que dança, que treina, que ensaia.

Não por acaso, Gonçalo M. Tavares já publicou, em pouco mais de nove anos, 26 livros, que passeiam entre diferentes gêneros literários e que são distribuídos em séries e cadernos numerados. As séries são termos de apreensão que ele anota para o leitor, um indício – como diz em entrevista que segue para este Suplemento, “algo que quem lê tem obrigação de dar substância” –, um mapa sutil que desenha uma suposta ordem para o seu trabalho espalhado por tantos livros, numa experiência intelectual que se apropria do ensaio, da filosofia, da ciência, da lógica etc., para compor um laboratório ficcional de sensações. Um procedimento muito próximo de um estado de dança, que aparece também como indício na anotação [espécie de subtítulo] que ele faz no seu Livro da Dança: “projecto para uma poética do movimento”. Essas séries são divididas em “Livros pretos [O Reino]”, “Livros pretos [Canções]”, “O Bairro”, “Estórias”, “Enciclopédia”, “Bloom Books”, “Poesia”, “Teatro”, “Arquivos” e “Investigações”. No Brasil, já foram publicados boa parte de seus livros, espalhados por diferentes editoras, como os magros e deliciosos livros da série “O Bairro”, publicados, em sua maioria, pela editora Casa da Palavra (RJ) como, por exemplo, os livros O Senhor Calvino, O Senhor Brecht, O Senhor Kraus, O Senhor Juarroz, O Senhor Walser. Os quatro romances da tetralogia “O Reino – Livros pretos”, que saíram pela Companhia das Letras (SP), e que é composta por Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, o premiado Jerusalém e Aprender a rezar na Era da Técnica. O Livro da Dança, da série “Investigações”, publicado pela Editora da Casa (SC). O livro 1, da série “Poesia”, publicado pela Bertrand Brasil (RJ). Os três livros da série “Enciclopédia” [Breves notas sobre ciência, Breves notas sobre o medo, Breves notas sobre a ligação], que saíram juntos, encartados numa caixa-estante, pela Editora da UFSC/ Editora da Casa (SC); entre alguns outros.

Assim, Gonçalo M. Tavares parece provocar uma implosão silenciosa e espalhada pelos tantos livros e gêneros literários que faz uso, numa tentativa de tornar o que antes era diferenciado [poesia, filosofia, ensaio, ficção, teatro, aforismos etc.] num estado uniforme, misturado, concentrado num único ponto, mínimo e indistinto, como escreve na abertura do seu livro Histórias Falsas [da série “Estórias”, publicado no Brasil pela Casa da Palavra]: “perceber o modo como a ficção [verossímil ou nem tanto] se pode encostar suavemente a um fragmento da verdade até ao ponto em que tudo se mistura e se torna uniforme.” Uma tarefa para a literatura que se apresenta como forma de resistência no mundo agora – treinar, ensaiar para que o corpo da escrita contemporânea seja profundo –, ao propor uma escrita que é também um compósito de intensidades. Uma escrita que, ao repetir o mesmo movimento, inúmeras vezes, de várias maneiras, sem um sentido único determinado, mas aberta para todos os lados num excesso de desejo e de atenção, se lança no mundo como felicidade e como jogo; uma escrita que procura situações sempre experimentais para retirar o corpo da superfície e ensaiar uma espécie de profundidade para a literatura como um corpo alterado, misturado e que, ao atirar-se no mundo, ainda pode ser pensamento e política.

O que segue é uma breve entrevista realizada por e-mail, entre julho e agosto do ano corrente.

Leia mais:
1. entrevista com Gonçalo M. Tavares
2. texto de Franklin Alves Dassie: Um bairro, uma biblioteca, alguns começos
3. texto de Manoel Ricardo de Lima: Invenção, filosofia, futebol
4. textos inéditos de Gonçalo M. Tavares

http://www.cultura.mg.gov.br/arquivos/SuplementoLiterario/File/edicao_1333_suplemento_literario(1).pdf

domingo, 16 de janeiro de 2011

onde mora natasha romanoff

veja bem o que aconteceu quando você voltou de moscou
durante aquela chuva fina, de surpresa, e invadiu a casa pela
janela. heather podia dormir ali e gritar por causa do barulho da
vidraça. heather mantém os cabelos curtos. mary jane, como
você, mantém os cabelos longos, e nunca dormiu por aqui, mas
sempre quis que viesse, que ficasse um pouco. mary jane é
muitas vezes bonita demais. mas agora é como se mudasse a
casa, de surpresa e pela janela, para lambari, e henriqueta
lisboa com o cabelo preso molhado de musgo diz a você
igualmente vestida de negro que é uma menina selvagem. um
assombro entre a árvore e o dia, a alma e os ossos. alma em
suspiro pelo encontro do que fica sempre mais longe. anônima
e traidora, esquiva e tímida, equilibrista e feroz, é que nenhum
amor dura tanto assim. os pés enfiados no estômago, a palavra
sai dura, a boca, o silêncio disfarçado na fumaça noturna, uma
dança e o esforço: manter o corpo de pé

manoel ricardo de lima
[esse poema faz parte da série inédita onde você está]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

carlos augusto lima,



Carlos continua com suas táticas do mínimo. São apenas dois bonitos poemas no seu mais novo livrinho: o livro da espera. Composto em prensa manual, 92 exemplares, tipografia do mestre Raul, Alpharrabio Edições, Coleção Mimo, Santo André, SP. Como conseguir um exemplar? Não sabemos. Mas verifique todos os dias a sua caixa de correio, e espere.

"e, depois, corro para a água e desapareço."


sábado, 1 de janeiro de 2011

alexandre barbalho, entre


ARQUITETURA DE POEMAS EM N.Y.

I
da janela
em frente a centenas
perfeita simetria

quem olha
de um lado a outro
por fora sem ver
por dentro

II
de uma janela a
outra
a escada de incêndio
compõe vizinhança

(vermelho ferrugem
sobre cinzas)
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entre [poemas], editora da casa, 2010