domingo, 26 de dezembro de 2010

nicanor parra,


IMAGEN DE MI PADRE

Yo tenía un fiel amigo
de lento mirar cansado
triste como un jardinero
y puro como un relámpago.

Tenía las manos suaves
como el corazón de un pájaro
al andar casi danzaba
y hablaba casi cantando.

Como ríos paralelos
vagábamos por los campos
yo lo confundía a veces
con la sombra de algún árbol.

El cielo que lo cubría
no podía ser más alto
y el nardo azul de su alma
no podía ser más nardo.

Si hubiera sido de agua
qué compañero tan claro!
serenos como sus ojos
nunca se verán dos lagos.

Amigo dulce dormido
que nunca será olvidado
ni en el día que se cierren
para mí todos los astros.

[1939]

domingo, 12 de dezembro de 2010

sala grumo [cultura latinoamericana],


Está no ar a última Sala Grumo de 2010

Ensaio:
Como desviar o olho [Clarice Lispector, Gonçalo M. Tavares]
por Júlia Studart

Ver: http://www.salagrumo.org/notas.php?notaId=129

*

Clarice Lispector

Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata torna-se mais importante que o imperador. Chamamos imperador ao imperador e barata à barata porque a média dos olhos humanos olha mais tempo para o imperador do que para a barata.
O que é um revolucionário, pergunta-me a minha filha de três anos, e eu respondo: é quem olha mais tempo para uma barata que para um imperador.
E o que é um imperador, pergunta-me a minha filha. É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata – respondi.
E, por favor, não me faças mais perguntas.

Gonçalo M. Tavares, do livro Biblioteca [Campo das Letras, 2004]

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

leonardo gandolfi,


LA MUERTE DE TONY BENNETT
(según Jaime Gil de Biedma)

Quiero deciros cómo todos trajimos
nuestras vidas aquí para contarlas.
Decir em portugués direita
es decir de las cosas derechas
o sea correctas. Y como se sabe derecha
es también lo que queda cerca de mi mano,
la derecha. Decir en inglés left
es decir de las cosas que siempre
están en otro lado, el otro lado y mi otra mano,
la izquierda. Left como también se sabe
es una conjugación del verbo
dejar. Dejar, una importante acción
con algunos significados, ejemplo, Tony
Bennett, I left my heart in San Francisco.
Ahora voy a contaros cómo también
yo estuve en París y fui dichoso.

A morte de Tony Bennett
de Leonardo Gandolfi, Lumme Editor, 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

jeremias,

Jeremias Ricardo de Lima
[14.06.1917 - 22.11.2010]

soul blues

à noite
sempre
após torradas
biscoitos
sai

estica
um pouco
as canelas

longevo
lento

o olhar
curvo
para baixo

a cidade pequena
silêncio

um lado
outro
talvez pense
:
a vida é tanto

e
cataloga
estrelas

em Embrulho, 2000
..........................

o quadrado branco, futebol

ele não liga mais a tv. a cabeça baixa, os olhos vincados no chão e uma poça de água. nem conta os ladrilhos nem dorme. nem de longe um gole de café uma torrada uma xícara de chá de alfazema ou capim santo. andar a calçada é por onde não pensa. tudo é perigo no corpo. tudo tem risco demais

manter o portão da frente fechado evita que os mosquitos e a chuva entrem pela janela. quando é o dia que a chuva vem? quando é que o amigo mais velho volta?

estas coisas, antes, de algum jeito, deixavam a vida de lado. um instante e outro, tudo muito sozinho. todos os dias não liga mais a tv e repara que ao fazer a barba não vê seu rosto, que as mãos não se movem direito

em Quando todos os acidentes acontecem, 2009

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

carlos h. schroeder,


As certezas e as palavras, de Carlos H. Schroeder
Primeiro lugar no Prêmio Clarice Lispector, categoria
Conto, da Biblioteca Nacional. A Editora da Casa, o
grande Carlos e toda palavra com porrada merecem.

Trecho do prefácio intitulado Pliè, ou um prefácio:

"este conjunto de narrativas de Carlos Henrique Schroeder, também por causa do título – As certezas e as palavras –, me remete a um trabalho de um artista visual português chamado João Onofre, intitulado Pas d’action: João reúne uma série de bailarinos na frente de uma câmera e pede a todos eles que façam um plié durante o tempo que conseguirem manter a posição. Um plié é aquele movimento de equilíbrio sobre a ponta da sapatilha, com os braços para o alto, em curva, e os joelhos flexionados. Diz-se que no balé clássico tudo deriva do plié, que é uma espécie de movimento de ponto de partida. O fato é que no trabalho de João os bailarinos caem um a um na frente da câmera até o último, que cai quatro minutos depois; é o fim da resistência do músculo, da ação, que começa agora vazia e na frente da câmera só há a queda. O movimento passa a ser aquilo-que-não. Este conjunto de Carlos me parece ser um pouco este pas d’action, nenhuma certeza a cada palavra nua, nenhuma palavra a cada ausência de qualquer coisa, como “o desejo de uma vida em branco”. Assim, refestele a mão e o olho com cada frase aqui como se também cada uma delas fosse sua, minha ou de ninguém. Carlos nos cede este lugar incerto, este, o de suas narrativas famintas.      [Manoel Ricardo de Lima]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

suplemento literário de minas gerais,


Edição especial, Animais escritos - Set/Out 2010 [n. 1.332]
Organização Maria Esther Maciel

a pele do coelho sem o coelho dentro
com nuno ramos
 
um,
com a mão coberta de pelo
e porra e a porta do banheiro
de uma estação de trem
em roma completamente
aberta:
um rato pálido e exposto
arrasta um colar azul de
miçangas hindus, uma
nota de dez e um esboço
de oração no meio do campo
marzio, alguém grita duas
vezes que o começo arranca
a pele das coisas, que agora
andamos por aí sem
amor, depois
grita outra vez quando
sobra apenas a pelanca de
tudo, quando o que sobra
é apenas pelanca ou uma
situação deserta como
esta, perder o binário
e mentir para salvar a
própria pele

dois,
fixo e estatelado no
chão, cuspe borrado entre
café e fumo, uma garatuja
da morte: não era mais
uma pele, disse o rato. era
o que, então, talvez se
pergunte aquele inseto
robô que viaja na gola
puída do japonês, fotógrafo
insistente, que enfia o pé
na porta quase fechada
do banheiro de uma
estação de trem em
roma. o inseto robô ri
e explode

manoel ricardo de lima

ver edição completa:
http://www.cultura.mg.gov.br/arquivos/SuplementoLiterario/File/1332.pdf