sexta-feira, 16 de outubro de 2009

outra conversa: poesia

por Carlos Augusto Lima (Coluna no Diário do Nordeste, Caderno 3, 16.10.09)
ver também: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=680310

Entrevista com Manoel Ricardo de Lima

Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com o desequilíbrio. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Poeta é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadasCom esta conversa poesia, a de número 7, encerro cá um ciclo, um estiramento de papo com alguns bons poetas de cá, ou de cá ao longe, este melhor lugar de ficar. Sete conversas que me deixaram feliz, escolhas certeiras, precisas, inteligentes. Que outras venham, de outra forma, outros lugares do saber e conhecer. Ou que seja apenas silêncio, quem sabe.Para este último papo, convido Manoel Ricardo de Lima, que nasceu no Piauí, mas é cearense, e anda nos longes de uma ilha, fincando lastros, conexões, conversas das mais variadas, que esticam o dedo de prosa para além da literatura (por ela mesma), e prefere criar um território de saber, contemporâneo, sem mesmo a ideia de território, como você vai ler e verá. Manoel é uma das vozes críticas mais contundentes e espertas da literatura contemporânea brasileira. Voz aguda, diversa, filosófica, de mil referências e saberes atuais que tanto o empolgam. Entre tantas e outras coisas, Manoel Ricardo foi articulista deste jornal, é doutor em Literatura e Textualidades Contemporâneas, pensando Joaquim Cardozo, pela UFSC, e retomou a escrita do poema no seu mais recente livro "Quando todos os acidentes acontecem" (Editora 7 Letras, 2009). Com vocês, Manoel. Que esteja presente.

1) Por que escrever poesia, essa insistência?
Ontem assisti a um documentário simples, O equilibrista, sobre o cara que andou entre as torres do WTC, Philippe Petit, não pelo filme, nada pelo filme, mas pelo ato poético, este ato que não tem porquê. 45 minutos num cabo, pra lá e pra cá, entre os terraços das torres, solto no tempo e com um imenso sorriso aliviado no rosto. Então é óbvio que Petit se irrite com a pergunta que todos lhe fazem: "mas por que você fez isso?", e se irrita porque defende o gesto de uma vida mais perto do perigo, uma vida que possa provocar uma rebelião. Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com isso, com o desequilíbrio do corpo lançado sobre um fio de vida alegre. Poesia, acredito, é lançamento. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Esta insistência passa um pouco por aí, por uma certa ética para o fanciullo, para a imaginação, para o amor, para o acidente que é o amor (descontrole, fúria, rasgo, acesso, distração, comum etc, e o que mais você quiser incluir aí, acho que cabe). E este ato não tem a ver com a palavra, apenas, isto me parece pobre e muito cristão, mas tem a ver com os modos de uso dos corpos com a vida, das operações do corpo e seus gestos políticos mais tensos. Quando escrevo, escrevo assim, como uma responsabilidade para nada, como "um território de luta", uma recusa e um lance com uma história aberta. E tenho tido cada vez mais vontade de escrever pra nada, num caráter insustentável do sentido.

2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?
Poeta é o que está expulso, Carlos, mas é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas. E estas mesmas coisas, me parece, de fato, todas elas, sem exceção, não tem mais saber histórico, não tem história, mas apenas um ajuste de emergência para o progresso. Uma história pré-fabricada, a que chamamos de poder, é a lei única e definitiva. O que nos sobra, a angústia? Esta pergunta é a marca feita com água a partir de uns versos de Alexandre Barbalho, "só o que me salva é a / angústia"; versos que vem como afirmativa, inclusive. A questão para o poeta agora, imagino, ainda pode ser retomar a utopia como um campo desejante, um campo para o desejo. Sempre com uma imprecisão interrogativa: como furar o campo da necessidade, que é o da política, com um poema, para armar um estado de utopia? Eu insisto nisso do poema porque preciso de um sonho, Carlos, ao menos um. Fazer a flor que posso ou tocar com a ponta do meu nariz num ponto furo de alguma ou qualquer imagem do mundo.

3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado?
Se eu começar a pensar em Fortaleza só como este lugar que tem nome de forte, posso começar a me sentir como Julio Cesar Chaves e desferir uns ganchos de esquerda, quase sem desperdício. Você deve lembrar que em 1990 Chaves ficou mais célebre ainda depois de derrubar Meldrick Taylor no último round, quando perdia por pontos, e mandou a frase: "Luta se ganha no ringue, não enquanto se discute." A frase é boba, de efeito, mas aponta pro chão, aponta pra onde o ato se constrói, pra onde é a queda, pra onde não tem porquê. Eu abandonei a discussão, Carlos, tenho me enchido de cansaço porque ela anda simplista, fora de prumo, atrás de significados e sem impertinência, e aí tanto faz se em Fortaleza ou em qualquer outro canto. Mas não abro mão de minha postura, do meu lugar político como poeta, por isso tenho a impressão de que não larguei o chão enquanto faço um pouco de silêncio e ando mais devagar, mas é só um pouco.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

tomaz salamun,

as árvores e as sombras não são proporcionais

se surpreenderá, mas não é assim
árvores muito altas não dão muita sombra
muita sombra dão as árvores baixas e largas

(trad. Manoel R. de Lima)

domingo, 27 de setembro de 2009

lenz buchmann,

"(...) os ossos da cabeça de um tonto que não dominasse sequer a linguagem não seria diferentes dos ossos de um estudioso ou de uma personalidade de acção."

"(...) um nome não era um terreno, que uma régua mais ou menos bem intencionada possa dividir, mantendo os dois lados minimamente satisfeitos. Um nome não se pode dividir."

"A frase primeiro o senhor, dita por alguém, num café, a um outro cliente que entrasse ao mesmo tempo, aceitando assim beber algo depois de o primeiro ser servido, era uma frase de guerra, de pura guerra."

terça-feira, 22 de setembro de 2009

uma conversa: poesia,

por Carlos Augusto Lima
(Coluna no Diário do Nordeste, Caderno 3, 18.09.09)
ver também: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=671882

Entrevista com Júlia Studart

Escritor precisa ter obra? Precisa ter livro, livro desses grossos, de se manter em pé, de ter volume e aparência de força? E quando um bom poeta se anuncia com vagar, ocupando espaços pequenos, publicando discretamente, aqui e ali, o que acontece? Penso que essa forma de ser (poeta) e discreto, a melhor. Pois tem um tempo trabalhado, chegando aos poucos, com arrumação de idéias, de experiências e discreta naturalidade. É pensando nisso que convido para esta conversa, sobre poesia, que já está no sexto número, como um projeto de mapear um bom pensamento novo nesta cidade, Júlia Studart, que nasceu em Fortaleza, 1979, mas já vê a cidade com a distância, necessária, quase abandono e teimosia de não estar. Júlia é autora de "Wittgenstein e Will Eisner" (Lumme Editor) e de "Livro, Segredo e Infâmia" (Editora da Casa). Publicou também "Marcoaurélio!" uma plaqueta com Milena Travassos (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura). Faz doutorado em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq, a partir das linhas narrativas de Gonçalo M. Tavares. Júlia vive em Florianópolis e observa à distância. O que é bom.

1) Por que escrever poesia, essa insistência?
Penso a poesia como uma espécie de provocação, de afronta. E por outro lado, também como um grande mal-entendido. E, acho que você deve lembrar bem, Carlos, que, de alguma forma, tudo isso começou com um convite seu para participar do projeto das plaquetas, quando você ainda estava no Centro Dragão do Mar. Ou seja, igualmente uma espécie de provocação, que me colocou num fogo cruzado com a poesia. Porque até então eu era apenas uma boa leitora de poesia, porém uma leitora muito distraída. Mas foi precisamente assim que apareceu o meu primeiro poema, Marcoaurélio!, que não deixa de ser uma provocação desdobrada, porque ainda tinha ali, do lado, o trabalho interessante da Milena Travassos. E aí, depois, vieram outros convites para escrever e publicar poemas, sempre entre uma provocação imprevista e todos os meus embaraços com essa linha de texto desajustada, abusada, quase uma zombaria. Hoje escrevo exatamente para tentar manter o mal-entendido, para sustentar a provocação, todas elas, e o convite aberto, esticado para o mundo e, principalmente, para perder o prumo. Acho que meu poema é meio desequilibrado, porque não sei direito como ele começa, nem como termina, mas sei bem o que não quero que esteja ali, escrito. E gosto que ele seja assim mesmo. Por isso escrevo tão pouco, tão devagar, aliás, o poema apenas me segue, porque faço tudo muito devagar. A idéia é reunir esta pequena produção num livro, quando conseguir, se conseguir, e óbvio, este primeiro livro vai ter que se chamar mal-entendido. E pode não aparecer nunca, também. Mas vou manter a insistência.

2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?
O escritor Gonçalo M. Tavares - que pesquiso no meu doutorado em literatura, aqui em Florianópolis/SC -, diz em um pequeno verbete intitulado Clarice Lispector, que está no seu livro Biblioteca, ainda inédito no Brasil, que: Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata torna-se mais importante que o imperador. E continua: O que é um revolucionário, pergunta-me a minha filha de três anos, e eu respondo: é quem olha mais tempo para uma barata que para um imperador. E o que é um imperador, pergunta-me a minha filha. É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata - respondi. Acho que o poeta é este revolucionário impreciso, o que procura manter um convite aberto para esta pequena "revolução", que passa por um desvio de olhar, uma saída do olhar médio e da linha central da história, para provocar uma deformação, um assombramento, uma perturbação, que pode ser figurada nesta imagem em ato, tão simples e banal: olhar mais tempo para uma barata que para o imperador. Ou seja, provocar um desequilíbrio na história, no monumento; esquecer-se do imperador, quem é o imperador, se há um imperador. O poeta pode até não existir, não tem precisão de existência, mas não sei o quanto o mundo pode ficar mais estranho de tão igualzinho sem esta figura desimportante.

3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado?
Bem, estou fora de Fortaleza há quase seis anos. Tanto que a cidade hoje me parece muito mais apenas um nome bonito, uma falta, um sei lá bem o quê. E escrevo de um outro lugar, escrevo meio sem cartografia; mas se posso pensar em uma, escrevo a partir de uma ilha, o que parece mais estranho ainda, que pode até trazer também uma mesma linha de mar, mas que não tem linha nenhuma, nenhuma cartografia. Muitas vezes acho que escrevo do meu corpo, da minha casa, do que vi passar ou do que queria muito ver passar diante do meu olho, como uma barata. O fato é que Fortaleza está muito pouco em meu trabalho, quase nada. Acho que devorei Fortaleza há muito tempo, numa espécie de ritual antropofágico, e que hoje ela não me visita mais, ou visita como um devorador. Perdemos as marcas, as duas.