sexta-feira, 30 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
poema, de 'o animal sorri'
[inédito]
introdução ao método
para o davi
ele realmente estudou o
problema do voo, diz
valéry, e concebeu uma
solução técnica bem
no começo do século
dezesseis, algo como
piglierà il primo volo il
grande uccello sopra del
dosso de sul magnio
cecero ecc ecc, mas
de fato o problema pode
ser esse, ou quase
esse, o da espera, porque é
preciso esperar por
probabilidades ainda não
conhecidas e dizer
afirmativas como ele
vai ele reconstrói ele se
atira ele adora esse corpo
do homem e da mulher
que pode ser medido
a tudo: uma rosa que vem
até o lábio, isto é uma
combinação regular ou
um sistema completo
em si mesmo ou a teoria
das ondulações luminosas
e a ilusão de produzir no
espírito de outra pessoa
algumas fantasias
manoel ricardo de lima
introdução ao método
para o davi
ele realmente estudou o
problema do voo, diz
valéry, e concebeu uma
solução técnica bem
no começo do século
dezesseis, algo como
piglierà il primo volo il
grande uccello sopra del
dosso de sul magnio
cecero ecc ecc, mas
de fato o problema pode
ser esse, ou quase
esse, o da espera, porque é
preciso esperar por
probabilidades ainda não
conhecidas e dizer
afirmativas como ele
vai ele reconstrói ele se
atira ele adora esse corpo
do homem e da mulher
que pode ser medido
a tudo: uma rosa que vem
até o lábio, isto é uma
combinação regular ou
um sistema completo
em si mesmo ou a teoria
das ondulações luminosas
e a ilusão de produzir no
espírito de outra pessoa
algumas fantasias
manoel ricardo de lima
quinta-feira, 22 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
alpendre [10 anos],
O projeto Heterotopias marca os dez anos de ação do Alpendre e inclui uma série de ações entre intervenções, exposições, mostras, palestras, mesas e publicações.
Esse projeto foi aprovado no edital Conexão Artes Visuais da Funarte que tem o patrocínio da Petrobras. A programação é gratuita e acontecerá durante uma semana a cada mês.
Fortaleza - Ce
Esse projeto foi aprovado no edital Conexão Artes Visuais da Funarte que tem o patrocínio da Petrobras. A programação é gratuita e acontecerá durante uma semana a cada mês.
Fortaleza - Ce
revista inteligência, n.49 [RJ, jul/2010]
Gonçalo M. Tavares: o corpo desobediente ou uma poética do movimento
por Júlia Studart
Ver: http://www.insightnet.com.br/inteligencia/49/PDFs/04.pdf
por Júlia Studart
Ver: http://www.insightnet.com.br/inteligencia/49/PDFs/04.pdf
os anomenos,
esses textos e bichos são um muito obrigado e um abraço em cada um dos alunos do meu último semestre como professor na graduação da ufsc. primavera de 2008. eles sabem o tanto. depois tudo aqui é roubo e imprecisão, por isso o abraço é esticado até wilson bueno, o dono dessa conversa toda, a quem dedico a brincadeira com esses anomenos.
[este livrinho já estava na gráfica quando veio a notícia ruim da morte do wilson, amigo precioso. o livro ficou vazio, mas cumpro, porque era uma alegria partilhada. guardo o abraço bom e o sorriso fácil, além do melhor pão francês com queijo e presunto e café com leite no meio de alguma tarde fria de curitiba em sua casa simples e afetiva]
manoel ricardo de lima
*
Os oriês
Silenciosos, estes encantadores e diminutos seres, os oriês, são oriundos dos subterrâneos de Tóquio, no mais profundo dos canais. Parecem cumprir a sina da viagem, e se espalham pelo mundo, contaminando as outras espécies de bichos com seus olhos de fenda livre e com suas faces que parecem coisas sem razão, feitas para a escritura no corpo. O pesquisador voraz destes pequeninos animais subterrâneos, o arqueólogo da escrita Bartherolando Autorum, diz que eles têm os olhos dormidos porque são voltados incansavelmente para a miniatura, para o pequeno, para o quase nada. E que sem exigir muito de suas presas, tocam facilmente o vazio de si mesmos. São seres anacrônicos e, por isso, conseguem ir até o extremo de suas individualidades ao esquecerem o próprio nome das ruas onde habitam a si mesmos, por baixo.
Os nadal
Abandonados à própria sorte, como se fossem tocados por uma robusta e desenfreada falta de desejo aos seus mais alentados caprichos, os nadal são bichos melancólicos, mesmo que reluzentes no escuro como os vagalumes, seus parentes próximos, e mesmo que obcecados em doses letais de veneno, papel e tinta, como seus outros parentes, desta vez distantes, os escorpiões. Mas tudo isso não passa daquilo que os nadal mais adoram, e se refestelam em sua adoração como duendes numa orgia perpétua: a crise. Ah, a crise, a doce e saborosa crise da ausência deles mesmos por dentro de seu recheio amarelo como um unto medieval. Mas se vistos de perto, e nem precisa ser tão de perto assim, se descobre no desdobramento de suas barbas que caem até o chão, o seu mais endiabrado sorriso: os nadal riem, riem, riem sem parar. E este é o paradoxo deles, entre a luz e o veneno.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Os anões, de Veronica Stigger
por Manoel Ricardo de Lima [Jornal do Brasil, 02.07.10]
Veronica Stigger publicou em 2003, pela Angelus Novus, de Portugal, o seu primeiro livro, O trágico e outras comédias. A edição brasileira é de 2004 (pela 7Letras), na charmosa coleção Rocinante. São pequenas narrativas de mutilação, entre construção e dissolução da matéria do mundo. Uma espécie de memória balbuciante do que não tem memória, como disse Henri Michaux; um caso extremo, uma laia, pode-se dizer, de aventura afinada e dilacerante das estruturas de circunstância da vida cotidiana. O nosso plano mais raso.
A primeira destas narrativas, por exemplo, se intitula "Câncer no cu". E conta a historieta desesperada de Moacir, que tem câncer no ânus e um gato verde. Incomodado, insone e exausto, Moacir tenta arrancar o câncer com uma faca pontiaguda, o ânus fica maior, o câncer continua persistente. Por fim, com outra faca pontiaguda, Moacir pega o gato verde pelo pescoço e o mata.
Depois, Veronica publicou o Gran Cabaret Demenzial, em 2007, pela Cosac Naify. Neste, a brincadeira (il scherzo, a simbologia desfeita) é uma espécie de soirée dadaísta, um antimecanismo gratuito de deformação, de novo, da esfera cotidiana. Algo metido a besta, como a vileza da piada contaminada de Oswald de Andrade, amor-humor, mas num desvio para uma naturalidade suspeita e para uma imoralidade. Narrativas que armam também uma conversa fabulosa com a sugestão de Mário de Andrade, a sátira dura do livro, para, através do cômico enviesado por certa anomalia da religiosidade, sem complacência, tocar a paz entre os homens de boa vontade.
Basta ver a narrativa-anúncio digerida: LUANA coroa baiana / tarada por anal de 4 quente / na cama garganta / profunda oral até o fim. Ou a narrativa intitulada "Argumentum chronologicum", que trata de um país com experiências cronológicas que pervertem o turismo e o império. O país se chama Jakoo.
O embaraço das narrativas de Veronica Stigger desemboca agora num livro-quase-objeto, intitulado Os anões. Um livro com fuselagem surpresa, em papel cartonado, uma caixinha quase tumular, com apresentação de Mario Bellatin, que está tardiamente convencido de que o livro é antes uma experiência, depois leitura. Ele chama a isto de característica do livro contemporâneo.
O fato é que Os anões, esta caixa-preta, refaz o olhar em torno das narrativas de Veronica, não só porque ela é pesquisadora e crítica de artes visuais, mas porque com este quase livro de artista parece enfrentar também através do projeto gráfico de Maria Carolina Sampaio um ponto furo da e na imagem. O jogo (il scherzo) agora é quando a palavra entra como um corpo escorregadio, entre encantamento, deboche e exílio, num beaux livre impresso na China. O que remete, de certa maneira, ao termo que Mirella Bentivoglio atribuiu aos livrosobjetojogo de Paulo Brusky: librismo. Librismo é o livro com ações de despegamento, com um redemoinho orgiário da matéria.
As pequenas narrativas de Os anões são um contraponto à burocracia e à quase escassa erudição, além do enfado de certo maneirismo literário excessivo, da maioria da prosa brasileira recente. Elas têm imaginação, vertigem e gesto, elas têm fabulare.
Ainda com Michaux porque têm a ver com poesia: são uma respiração com algo de inapropriado, asfixiante, de fluidez benéfica e devastadora. Livro mínimo, porém bastante, que atravessa as personagens fundamentais sugeridas por Elsa Morante, as que indicam as três atitudes do homem diante da realidade: o calcanhar de Aquiles, ou o Grego da idade feliz (a realidade se mostra viva, fresca, nova e absolutamente natural); Don Quijote (a realidade não o satisfaz e lhe inspira repugnância, e ele procura salvação na ficção); e Hamlet (a realidade inspira repugnância, mas não encontra salvação, e no final decide não ser). Elsa as chama de personagens-atitudes que dão origem, e origem como um salto, às personagens híbridas: enxertos, derivações e contaminações. Veja-se as narrativas "Os anões" (que dá título ao livro) ou "Ceia", que dizem dessas derivações, mas em estruturas corrosivas e debochadas como uma gargalhada solta e perversa.
Veja-se ainda as pequeníssimas narrativas "L'après-midi de V.S." ou "(Flávio de Carvalho)", respectivamente, apontadas para uma releitura crítica: Achei que as igrejas daqui eram mudas / Sabia mas não sei mais qual é o sexo de Wega Nery / Só eu não senti o terremoto e New Kolor / (Utilicity 13,90) / Lâmina de aço inox / Cabos de polipropileno / Resistentes à máquina / de lavar.
Veronica Stigger lança também, agora, junto com Os anões, o livrinho infantil intitulado Dora e o sol (Editora 34), que narra as aventuras de uma cadela com o sol, a noite e o dia, outra vez quando o sol reaparece casa adentro, pela porta. Muito bonito. Ainda, num conjunto de ensaios, no livro Maria (Cosac Naify), sobre Maria Martins, organizado por Charles Cosac (que compõe uma série importante sobre a artista ao lado dos trabalhos de pesquisa publicados mais recentemente, como os de Raúl Antelo, Maria com Marcel Duchamp en los trópicos, de 2006 e o de Graça Ramos, Maria Martins: escultora dos trópicos, de 2009) Veronica participa com um texto intitulado "Escritos de Maria Martins: 1956-65", acerca dos livros que a artista escreveu a partir de algumas viagens à Índia, à China, ao Egito e ao Japão e de seu interesse pelo que se produzia fora da Europa, aquilo que era impresso na China. A ideia de Veronica, me parece, é encontrar em Maria Martins, ou com Maria Martins, uma respiração para além da mera anedota, como estas suas narrativas todas, sempre a provocação de um encontro com uma gente que escava um pouquinho mais.
Ver também: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/07/02/e020711514.asp
Veronica Stigger publicou em 2003, pela Angelus Novus, de Portugal, o seu primeiro livro, O trágico e outras comédias. A edição brasileira é de 2004 (pela 7Letras), na charmosa coleção Rocinante. São pequenas narrativas de mutilação, entre construção e dissolução da matéria do mundo. Uma espécie de memória balbuciante do que não tem memória, como disse Henri Michaux; um caso extremo, uma laia, pode-se dizer, de aventura afinada e dilacerante das estruturas de circunstância da vida cotidiana. O nosso plano mais raso.
A primeira destas narrativas, por exemplo, se intitula "Câncer no cu". E conta a historieta desesperada de Moacir, que tem câncer no ânus e um gato verde. Incomodado, insone e exausto, Moacir tenta arrancar o câncer com uma faca pontiaguda, o ânus fica maior, o câncer continua persistente. Por fim, com outra faca pontiaguda, Moacir pega o gato verde pelo pescoço e o mata.
Depois, Veronica publicou o Gran Cabaret Demenzial, em 2007, pela Cosac Naify. Neste, a brincadeira (il scherzo, a simbologia desfeita) é uma espécie de soirée dadaísta, um antimecanismo gratuito de deformação, de novo, da esfera cotidiana. Algo metido a besta, como a vileza da piada contaminada de Oswald de Andrade, amor-humor, mas num desvio para uma naturalidade suspeita e para uma imoralidade. Narrativas que armam também uma conversa fabulosa com a sugestão de Mário de Andrade, a sátira dura do livro, para, através do cômico enviesado por certa anomalia da religiosidade, sem complacência, tocar a paz entre os homens de boa vontade.
Basta ver a narrativa-anúncio digerida: LUANA coroa baiana / tarada por anal de 4 quente / na cama garganta / profunda oral até o fim. Ou a narrativa intitulada "Argumentum chronologicum", que trata de um país com experiências cronológicas que pervertem o turismo e o império. O país se chama Jakoo.
O embaraço das narrativas de Veronica Stigger desemboca agora num livro-quase-objeto, intitulado Os anões. Um livro com fuselagem surpresa, em papel cartonado, uma caixinha quase tumular, com apresentação de Mario Bellatin, que está tardiamente convencido de que o livro é antes uma experiência, depois leitura. Ele chama a isto de característica do livro contemporâneo.
O fato é que Os anões, esta caixa-preta, refaz o olhar em torno das narrativas de Veronica, não só porque ela é pesquisadora e crítica de artes visuais, mas porque com este quase livro de artista parece enfrentar também através do projeto gráfico de Maria Carolina Sampaio um ponto furo da e na imagem. O jogo (il scherzo) agora é quando a palavra entra como um corpo escorregadio, entre encantamento, deboche e exílio, num beaux livre impresso na China. O que remete, de certa maneira, ao termo que Mirella Bentivoglio atribuiu aos livrosobjetojogo de Paulo Brusky: librismo. Librismo é o livro com ações de despegamento, com um redemoinho orgiário da matéria.
As pequenas narrativas de Os anões são um contraponto à burocracia e à quase escassa erudição, além do enfado de certo maneirismo literário excessivo, da maioria da prosa brasileira recente. Elas têm imaginação, vertigem e gesto, elas têm fabulare.
Ainda com Michaux porque têm a ver com poesia: são uma respiração com algo de inapropriado, asfixiante, de fluidez benéfica e devastadora. Livro mínimo, porém bastante, que atravessa as personagens fundamentais sugeridas por Elsa Morante, as que indicam as três atitudes do homem diante da realidade: o calcanhar de Aquiles, ou o Grego da idade feliz (a realidade se mostra viva, fresca, nova e absolutamente natural); Don Quijote (a realidade não o satisfaz e lhe inspira repugnância, e ele procura salvação na ficção); e Hamlet (a realidade inspira repugnância, mas não encontra salvação, e no final decide não ser). Elsa as chama de personagens-atitudes que dão origem, e origem como um salto, às personagens híbridas: enxertos, derivações e contaminações. Veja-se as narrativas "Os anões" (que dá título ao livro) ou "Ceia", que dizem dessas derivações, mas em estruturas corrosivas e debochadas como uma gargalhada solta e perversa.
Veja-se ainda as pequeníssimas narrativas "L'après-midi de V.S." ou "(Flávio de Carvalho)", respectivamente, apontadas para uma releitura crítica: Achei que as igrejas daqui eram mudas / Sabia mas não sei mais qual é o sexo de Wega Nery / Só eu não senti o terremoto e New Kolor / (Utilicity 13,90) / Lâmina de aço inox / Cabos de polipropileno / Resistentes à máquina / de lavar.
Veronica Stigger lança também, agora, junto com Os anões, o livrinho infantil intitulado Dora e o sol (Editora 34), que narra as aventuras de uma cadela com o sol, a noite e o dia, outra vez quando o sol reaparece casa adentro, pela porta. Muito bonito. Ainda, num conjunto de ensaios, no livro Maria (Cosac Naify), sobre Maria Martins, organizado por Charles Cosac (que compõe uma série importante sobre a artista ao lado dos trabalhos de pesquisa publicados mais recentemente, como os de Raúl Antelo, Maria com Marcel Duchamp en los trópicos, de 2006 e o de Graça Ramos, Maria Martins: escultora dos trópicos, de 2009) Veronica participa com um texto intitulado "Escritos de Maria Martins: 1956-65", acerca dos livros que a artista escreveu a partir de algumas viagens à Índia, à China, ao Egito e ao Japão e de seu interesse pelo que se produzia fora da Europa, aquilo que era impresso na China. A ideia de Veronica, me parece, é encontrar em Maria Martins, ou com Maria Martins, uma respiração para além da mera anedota, como estas suas narrativas todas, sempre a provocação de um encontro com uma gente que escava um pouquinho mais.
Ver também: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/07/02/e020711514.asp
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